Ostrava, 13 de Fevereiro de 2007


Caros amigos,


Terça-feira, sétimo dia de viagem. Após ter acordado e acessado a internet, apreciei um típico prato da República Tcheca denominado Svíčková-Sirloin, feito por Jurcik. (?). Na TV, um noticiário esportivo narrava a transferência de Ronaldo para o futebol italiano.

À tarde, a minha atenciosa família hospedeira me levou a um “city-tour” pela cidade de Ostrava, especialmente pelas vias adjacentes aos antigos edifícios soviéticos. Mais uma vez, deparei-me com memoráveis construções residenciais horizontalizadas, pardas e sombrias. Pensei com os meus botões: “mas por quê os comunistas tinham, nesses aspectos, tanto mau gosto?”. Felizmente, após a abertura do país, as famílias locais vêm dando uma nova configuração à paisagem urbana, revitalizando os seus prédios com enérgicas cores. Ostrava, dizem os seus habitantes, tem estado cada vez mais atraente, muito embora tenha eu as minhas dúvidas se o capitalismo é verdadeiramente um conto de fados, digo, fadas.

Pela janela do carro, registrei, com vídeos e fotos, toda a trajetória. Observei várias famílias pelas calçadas, em uma tranqüila tarde de terça-feira. Presenciei, ainda, inúmeras carboníferas edificadas no início do século XX, bem como a acentuada “capitalização” do país. Placas publicitárias e automóveis alemães, americanos, asiáticos e franceses não deixam dúvidas sobre os novos rumos da República Tcheca, apesar de um pequeno, velho e interessante carro soviético avistado remanesça no novo milênio.

No final da tarde, fomos à prefeitura de Ostrava. No alto de sua torre, uma magnífica vista panorâmica foi por mim apreciada “under a beaultiful Monet-like sky”. Pude observar, visualizando a fumaça expelida pelas chaminés das indústrias, a intensa atividade fabril da cidade. Nádia, rindo e brincando, disse-me existir vulcões na região, apontando para uma das fábricas. Claro, respondi com um “ah, não me venha com essa!”. Na sala de informações turísticas da prefeitura, um grande mapa-mundi se estende em uma das paredes. Nele, as inúmeras pequenas bandeiras nacionais fincadas em cada cidade de cada país revelam a proveniência dos turistas que a visitaram. Conforme constatei, havia bandeiras brasileiras indicando turistas cariocas e gaúchos. Naquele momento, percebi que, às vezes, 1 em 3 milhões faz enorme diferença. Assim, finquei, orgulhosamente, uma bandeira no ponto indicativo da cidade de Belo Horizonte. Sim, o primeiro belo-horizontino e o primeiro mineiro a visitar a longínqua e inesquecível Ostrava.

Após termos ido à prefeitura, rumamos em direção à residência do “patrão” de Jurcik, localizada em uma remota e bucólica área da cidade. Jurcik trabalha como transportador de mercadorias vindas dos Países Baixos e, de 15 em 15 dias, parte em direção ao oeste, guiando a sua enorme carreta, um dos meios de subsistência da família. Eu, Alesek e Nádia aguardamos no carro, enquanto Jurcik recebia informações e documentos para a sua próxima viagem rumo à Holanda. Amigavelmente, seu chefe veio me conhecer e, apertando uma de minhas mãos, referiu-se, com entusiasmo, ao futebol brasileiro.

À noite, comemorei, juntamente com Alesek e Dennis, a minha passagem pela República Tcheca, embora hoje tenha sido o último dia no país. Fomos a uma tradicional região noturna da cidade, ainda que terças-feiras não possibilitem ruas e “pubs” movimentados por jovens e freqüentadores da vida boêmia da região. Sim, aqui é a Morávia, uma das duas partes nas quais se divide o país, mas não é preciso estar em Praga ou em outra cidade qualquer da Boêmia para desfrutar o que a noite tem de melhor.

Em um aconchegante bar, desafiei os meus amigos a beber e a experimentar, na medida do possível, todas os choops ofertados, afinal encontro-me na Europa Central e tudo é motivo de festa. Curiosamente, a cerveja tipo Pilsner foi criada e desenvolvida na cidade denominada Pilsen, localizada ao sul de Praga. Logo, antes de nos referirmos aos alemães e à Bavária como fontes de toda “bebedeira”, devemos nos direcionar à República Tcheca. Ademais, é da cidade Ceské Budejovice que a célebre cerveja Budweiser Budvar provém, apesar de a americana Budweiser levar a fama. Durante toda a noite, conversamos e, indubitavelmente, decidi retornar, em Julho, ao país. No toca-discos, selecionei inúmeras músicas latinas, “apimentando” o recaído e vazio “pub”.

Após nos divertirmos, rumamos em direção às nossas residências. Despedi-me de Dennis, convicto da nova amizade que fiz. Hoje é a minha última noite em Ostrava. Amanhã, rumo em direção a Viena, capital da Áustria.

 




Escrito por André Oliveira às 18h28
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Após a agradável visita, eu, Alesek e seus pais rumamos em direção ao apartamento no qual me hospedo. No elevador do prédio residencial, um pequeno garotinho, ao ouvir-me conversando com minha mãe, em uma ligação do Brasil, quedou-se confuso com o meu idioma, reputado, nada mais nada menos, “alienígena”. Disse aos seus pais, em tcheco, “não estou entendendo nada!”, ou algo do gênero. Claro, ele tinha plena razão.

À noite, fui convidado a aprender a jogar um dos mais populares esportes da República Tcheca: “ice hockey”. Nas segundas-feiras, reúne-se, no gélido ginásio do time Vitkovice, uma espécie de “clube de jogadores de hockey da terceira idade”. Para lá dirigi-me, juntamente com Alesek e Jurcik. Ao chegarmos, as divisões de base ainda treinavam, sob os atentos olhares dos papais-coruja, e, claro, fiquei vendo a criançada se divertir. Um dos meninos ainda aprendia a patinar, apoiando-se num gol móvel. Ao pensar que pouco me diferenciava do pobre coitado, resolvi segurar o riso. Mais tarde, Dennis apareceu no local e Alesek, jocosamente, perguntou-me se sapatos pretos combinam com “jeans”, referindo-se à roupa do colega. Disse que sim, que é uma combinação comum no Brasil, embora eu não use.  Ambos são jogadores juvenis do Havirov, um dos mais importantes times de “ice hockey”do país.

Iniciado o aquecimento da “velha guarda do hockey”, entrei na arena, com uma bandeira do Brasil amarrada junto ao corpo, e, para a surpresa de muitos, patinei sem nenhum escorregão, sem nenhuma queda. Claro, ainda que patins de rodinhas sejam, de fato, bastante diferentes, devo a eles o meu relativo sucesso no gelo. Alesek emprestou-me uma raquete – ó céus, será “raquete” o nome? – e, a partir de então, pude ensaiar algumas tacadas. Considerando que o gélido “ice hockey” está literalmente longe de ser minha “praia” (e gelo está realmente longe de Copacabana), patinei, patinei, e sempre passava do disco, afinal, “desenfreado” que sou, não consegui me controlar. Infeliz no gelo e também no futebol, preferi chutar a “bola”, digo, disco, e mostrar a todos com quantas furadas se faz um Junta e Vamo.

Iniciada a partida, dei lugar ao clube da terceira idade. Eu, Alesek e Dennis deixamos o ginásio Vitkovice e rumamos em direção a um “pub” não muito distante dali. Conversamos, bebemos e, mais tarde, retornamos para casa, quando pude observar a presença de um Fiat Dobló estacionado na distante Ostrava. Procurei constatar a proveniência do veículo, mas sem sucesso. Passando por um posto de gasolina, adquiri um adesivo de automóvel indicativo da proveniência tcheca do mesmo, através das iniciais “CZ” (Cescká Republika). Sim, o meu objetivo é comprar (e colecionar) tal espécie de adesivo em cada país europeu que visitar.

Chegando em casa, verifiquei a minha caixa de e-mails, bem como mensagens de familiares e amigos brasileiros. No aparelho de som, coloquei alguns CDs de música brasileira. As vozes de Chico Buarque e Samuel Rosa ecoaram no Leste Europeu e não nego ter sentido algo “estranho” por dentro. Neste momento, estou a finalizar tal memorando. Certamente, o dia de hoje será para sempre lembrado. Estes escritos preservarão minha memória.

 




Escrito por André Oliveira às 20h27
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Ostrava, 12 de Fevereiro de 2007


Caros amigos,


Após uma boa noite de sono, em confortável e confiável ambiente familiar, levantei-me e tomei o meu café-da-manhã. Hoje, eu, Alesek e seu pai, Jurcik, viajamos rumo a Bilá, pequena cidade localizada ao sul da República Tcheca, nas proximidades da fronteira com a vizinha Eslováquia. “Mas ó céus, o que fazer em Bilá?”, perguntarão meus caros amigos. “Esquiar!”, respondo. “E pela primeira vez!”, completo.

Na viagem, pude apreciar a paisagem da região. Ao iniciarmos a subida pelas montanhas, constatei a presença de pequenos resquícios de neve ao longo das duas margens da rodovia. Após 30 minutos e cerca de 40 quilômetros percorridos, chegamos à estação de ski de Bilá. Retiramos todos os instrumentos do carro e, finalmente, apoiei os meus pés sobre o gelo que era, nada mais nada menos, tcheco...! Alesek e Jurcik emprestaram-me os seus equipamentos de ski. Após equipar-me com toda a parafernália, experimentei dar algumas voltas na neve. Iniciante que era – e, ainda, sou –, subi, “mineiramente”, com demasiada dificuldade, um pequeno pedaço da colina. Como estou longe de ser um revolucionário das leis da física, cumpri o postulado de Newton segundo o qual “tudo o que sobe, desce”. A primeira descida foi, dentro do possível, perfeita, isto é, sem quedas. Na descida seguinte, senti falta do pedal de freio e, como vocês já devem supor, levei uma queda digna de ser incluída nas vídeo-cassetadas do Faustão. Graças a Alesek, que me parou com as mãos, não tive que acionar o meu seguro-saúde pela primeira vez. Gostei tanto do negócio que, na terceira vez, fui mais longe, descendo tranqüilamente. Mais tarde, Alesek e Jurcik esquiaram e, habituados que são, utilizaram um pequeno teleférico que os levaram para o longínquo topo da montanha.

Após nos divertirmos na gélida Bilá, voltamos a Ostrava. No caminho, observei os interessantes prédios residenciais do tempo da ex-União Soviética, marcantes pelas escuras cores e pela horizontalidade. Digo que esta foi uma das mais interessantes experiências desta inesquecível viagem.

Na tarde de hoje, conheci os avós de Alesek, pai e mãe de Nádia. Receberam-me muito bem, na verdade, embora não falem inglês, pois, conforme já havia mencionado, são marcantes os resquícios da influência soviética na região. Enquanto conversávamos, sendo Alesek o “tradutor oficial”, pude degustar pequenos pães recheados com geléia, juntamente com café turco, apesar de todos os anfitriões serem originariamente eslavos. Finalmente, após 4 dias no país, dei-me conta do modo como é preparado o café-com-leite tcheco. Tomem nota: o café é servido juntamente com pequenos potinhos, nos quais há um leite concentrado, espécie de creme de leite, que deverá ser despejado na xícara ou copo com café. De fato, naquele momento, regressei no tempo e percebi o porquê de nunca terem me dado, em Praga, um “legítimo” café-com-leite mineiro.

Curioso que sou, perguntei sobre o passado. Afinal, qual é a visão daquela típica família tcheca acerca do findo comunismo? Confesso ter sido muito cauteloso com os meus questionamentos, pois não fazia a mínima idéia do modo pelo qual eles eram traduzidos. Disseram-me que pouca mudança ocorreu em suas vidas. Hesitei-me e perguntei com os meus botões: “puxa vida, uma das maiores potências da época sucumbiu, um muro que dividia arruinou-se e recebo ‘pouca mudança’ como resposta?”. “Xeretando” o passado, dei-me conta que o avô de Alesek, após a abertura do país, não perdera o seu emprego, diferentemente da mão-de-obra em geral. Trabalhador em uma carbonífera, manteve-se empregado, apesar da transferência do controle da empresa à iniciativa privada. Considerando uma partida de futebol, é como se o Estado fosse substituído pelo burguês. Apesar da substituição, o avô de Alesek permaneceu na ativa e, é claro, não teria razões para reclamar ou sentir mudanças. Hoje, aposentado, vive com a esposa em um dos típicos bairros residenciais de Ostrava.

Conversa vai, conversa vem, fui presenteado com um guia turístico de Praga. Folheei um antigo Atlas, bem como um interessante livro sobre a ex-URSS. Ensaiei algumas palavras no idioma tcheco e um “Stare Atlas” (velho atlas) arrancou risadas de meus anfitriões. Claro, a “Stare Mesto”(cidade velha) de Praga incrementou o meu parco vocabulário. Antes de partir, tirei uma histórica fotografia com a família, estando a bandeira brasileira à frente. Despedimo-nos e confesso a todos vocês que esta tarde foi, sem dúvida alguma, especial.

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Escrito por André Oliveira às 20h26
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Visitamos, ainda, a pequena Basílica de São Jorge (ano 920), igreja em estilo românico, muito embora a sua vívida fachada, acrescentada no século XVII, seja barroca. Há um convento, a ela anexado, que abriga uma coleção de arte maneirista e barroca da Boêmia. O nosso ingresso estudantil, entretanto, não dava direito a visitá-lo e fomos educadamente barrados na entrada.

A Viela Dourada é uma estreita travessa na qual se situam pequenas e coloridas casas construídas no final do século XVI para abrigar os guardas do castelo real. A rua tem esse nome em razão dos ourives que nela passaram a morar a partir do século XVII. Durante o século XIX, a área se deteriorou e a população pobre e marginal de Praga passou a habitá-la. Franz Kafka viveu no número 22 entre 1916 e 1917. Hoje, pequenas lojas ocupam as restauradas casas e vale um conselho para os desatentos: mantenham a cabeça abaixada ao visitá-las!

Antes de deixarmos o Castelo de Praga, entramos na tenebrosa Torre Dalibor (século XV). Esta leva o nome de seu primeiro prisioneiro, um cavaleiro condenado à morte por ter dado abrigo a servos fugitivos. Inúmeras armas e artifícios de tortura, usados na Idade Média, são exibidos. Ossadas de alguns infelizes compõem a “decoração” do local.

Pegamos o bonde que nos deixou próximo à residência. Utilizar o sistema de bondes em qualquer cidade turística, como Praga, é sempre prazeroso, porque, além da função de transporte, propicia um belo passeio pelas ruas e avenidas. Viajante que sou, registrei o momento, utilizando minha câmera filmadora.
 
Arrumamos nossas malas e seguimos em direção à estação ferroviária. Um grupo de adolescentes atraiu minha atenção, já que conversavam e discutiam alto. Alesek disse-me para não olhá-los, pois, em suas palavras, eram imigrantes romenos “brigões” ou “perigosos”. Percebi uma certa dose preconceituosa e dei-me conta das eventuais rivalidades existentes entre os europeus. Claro, não é interessante para tchecos haver romenos em suas terras, em busca de trabalho ou melhores condições de vida, assim como alemães ou ingleses vêem com ressalva a presença de tchecos em seus países. Há uma curiosa cadeia hierárquica, para não dizer “alimentar”, pois tal expressão soaria indubitável canibalismo.

Após 3 dias em Praga, hoje parti para Ostrava, terceira maior cidade da República Tcheca. Aqui vive Alesek e sua família que, atenciosamente, convidou-me para conhecê-la, bem como a cidade, localizada próxima à fronteira com a Polônia.

O trem para Ostrava tinha saída marcada para as 19h. Decidimos aguardar em um “pub”, localizado próximo à estação. Nele havia uma sala de computadores anexa e, aproveitando a oportunidade, acessei a internet e conversei com alguns amigos brasileiros, utilizando um dificultoso teclado estrangeiro. Narrei um pouco de minhas experiências vividas até então, ao som de uma “remixada” música de Jorge Ben Jor. Decorridos alguns minutos, voltamos para a estação e embarcamos, muito embora o meu assento fosse em cabine diferente da de Alesek e Dennis. No entanto, iniciada a viagem, “migrei” para junto de meus amigos. Em nossa cabine viajavam, ainda, um risonho casal de, mais ou menos, 15 anos. Confesso ter ficado incomodado, para não dizer curioso, pois não entendia o porquê de tamanha felicidade. Poderia ser o amor, mas percebi que eram, apenas, amigos. No trajeto, Alesek e Dennis ensinaram-me algumas expressões em tcheco, claro palavrões ou frases engraçadas. Ainda me lembro de um tal de “Nemisei jedna hola dupa!”. Perguntei o significado, mas entender a expressão foi mais complicado que azeitona em boca de banguela. Retribuí as gentilezas e dei algumas aulas do mais “polido” português brasileiro. Ademais, conversamos e mostrei alguns postais e fotos de cidades brasileiras, bem como um mapa do Brasil. Esta foi minha primeira viagem de trem na Europa, célebre por sua vasta e eficiente rede ferroviária.

Após 3 horas de viagem, desembarcamos em Ostrava. De fato, embora bem agasalhado, senti o verdadeiro frio do Leste Europeu. Uma forte névoa encobre a cidade e penso que a temperatura local, ou ao menos a sensação térmica, esteja abaixo de zero grau. Sim, pela primeira vez em minha vida estou do outro lado da escala Celsius. Alesek disse-me para respirar fundo e sentir o efeito do tempo em meus pulmões. Claro, não dei ouvidos a ele, pois, do contrário, estaria fadado a terminar minha viagem em um leito de hospital.

Dennis despediu-se e tomou o rumo de sua residência. Alesek vive com seus pais e um irmão, em um apartamento no bairro Zabreh. Pegamos o bonde e desembarcamos em Horymirová. Atravessamos a deserta rua e entramos em seu prédio. Conheci Jurcik e Nádia, pais de Alesek. Pouco falam inglês, na verdade, o que demonstra os resquícios da influência comunista no país. Após nos cumprimentarmos, acomodei minha bagagem e tomei um banho. De alma lavada, jantei um delicioso “steak” de frango com maionese, prato não diferente dos padrões brasileiros. Após 1 semana “na estrada”, uma refeição feita em casa veio a calhar! Sentamos-nos na sala e mostrei, aos meus anfitriões, algumas fotos de minha família, bem como os presenteei com alguns produtos “made in Brazil”. Jogamos conversa fora ao longo da noite e vi um engraçado vídeo de família. Fui convidado para, amanhã, esquiar pela primeira vez. Resta-me uma boa noite de sono e, claro, expectativas para o vindouro dia.

 




Escrito por André Oliveira às 16h59
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Praga, domingo, 11 de Fevereiro de 2007


Caros Amigos,


Hoje, domingo, completa-se uma semana desde minha chegada no continente europeu, muito embora eu já tenha estado em três países – Portugal, Suíça e, no momento, República Tcheca.

Após uma gélida noite na qual, de fato, dormi com luvas, eu, Alesek e Dennis acordamos e tivemos o nosso café-da-manhã num “fast-food” local. Pedi um simples café-com-leite, satisfazendo-me apenas com a bebida. O atendente entregou-me um copo com café, juntamente com pequenos ‘potinhos’ de “sei-lá-o-que”, identificados no incompreensível idioma tcheco, mas sem o leite, conforme constatei, apesar de não ter reclamado, já que aquele pouco dominava a língua inglesa. Preferi, optando pela idéia do mínimo esforço, não fazer mímica ou outro sinal universal qualquer, e deixei tudo como estava, afinal nada me aborreceria em Praga. Alesek alertou-me, dizendo que um singelo café não é o bastante para a “mais importante refeição do dia”. Uma fantástica e sobrenatural imagem de minha mãe apareceu, de súbito, em plena República Tcheca, mas como ela está a milhares de quilômetros daqui e somente por esses escritos poderá ter conhecimento do fato, releguei.

Após a refeição, pegamos o bonde que nos deixou, novamente, em Mala Strana, muito embora o roteiro de hoje tenha sido, de fato, diferente. Passamos pela Praça de Mala Strana e fotografei a Igreja de São Nicolau (1761). A bela e estreita Rua Nerudova fora cenário de muitos contos de Jan Neruda, escritor do século XIX. Conheço o Pablo, mas não o Jan e, claro, não faltarão motivos para ler os seus escritos ambientados em Praga. As pequenas casas localizadas ao longo da via possuem, em suas fachadas, interessantes símbolos que, antes da instituição do sistema de numeração, as identificavam. Jan Neruda viveu, durante 12 anos, na Casa dos Dois Sóis. Pude observar, ainda, dentre outras, a Casa dos Três Pequenos Violinos e a Casa da Lagosta Verde.

No topo da Rua Nerudova, uma pequena passagem nos levou para o fabuloso Castelo de Praga, inaugurado no século IX. Apreciei, da Praça do Castelo, ao som de um violinista, uma incrível vista da cidade. Portado de um útil guia turístico, sugeri o percurso indicado. Iniciamos a visita pelo Portão de Matias (1614), em frente do qual se estendem duas bandeiras do país. Apesar do vento e do frio, dois soldados intactos realizam a guarda do castelo. Claro, pedi a Alesek que me fotografasse junto às imponentes figuras. Olhei, olhei e percebi que, ao menos, os guardas presidenciais mexiam e podem mexer os olhos. Ah, sim... Que passe a “garota de Ipanema”!

Atravessamos o segundo pátio interior, no qual se avista as janelas do gabinete do presidente da República Tcheca. As magníficas torres da Catedral de São Vito já se apontavam. Após cruzar um pequeno corredor, tive a surpreendente imagem da grandiosa catedral, cuja construção iniciara-se em 1344, a mando de Carlos IV. Nunca havia estado diante de tamanha obra religiosa. Nela entramos e constatei que as igrejas góticas são mais belas externamente e menos interessantes na parte interna – basicamente tetos abobadados pouco trabalhados e extensas vigas de concreto. Claro, sempre há os bem feitos vitrais, mas acredito que as igrejas barrocas são mais impactantes internamente. As naves da catedral são enormes e, em tal espécie de ambiente, escuro, não há poderosos “flashes” que propiciam boas fotografias. O túmulo do rei Venceslau localiza-se numa capela interior. Ainda que pese o célebre pensamento de Mário Quintana, segundo o qual há um abismo entre ossos e túmulos de anônimos e ossos e túmulos de celebridades, decidi não pagar para ver defunto.

Embora analfabeto em história política tcheca da Idade Média, que, de fato, não deve ser lá tão interessante, conheci o Palácio Real (século XI). Este é, para os descuidados e desavisados, imperceptível, dada sua simplicidade externa. No entanto, abriga vários salões com interessantes quadros e brasões. Estes recobrem as paredes e os tetos dos aposentos do Arquivo da Nova Terra. A Capela de Todos os Santos, construída para Carlos IV, tem um precioso altar dourado. O Palácio Real foi residência de uma longa linhagem de reis da Boêmia e, durante o domínio Habsburgo, tornou-se sede dos gabinetes do governo local.

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Escrito por André Oliveira às 16h58
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Um pequeno bonde ajudou-nos a descer as íngremes colinas de Mala Strana e, em seguida, caminhamos em direção à célebre Ponte Carlos. Passamos por estreitas vielas, que, num passado pouco remoto, disse-me Alesek, foram submersas pela enchente do rio Vltava, tal como demonstram as marcas d’água nas paredes dos palacetes e pequenas casas. Consulados e embaixadas de inúmeros países estão localizados na região – mas não a do Brasil.

Carlos IV, imperador do vasto Sacro Império Romano-Germânico, no século XIV, é uma figura amada e respeitada pelos tchecos. A Karluv Most, tradicional ponte da cidade – que liga Stare Mesto a Malá Strana –, não leva o seu nome em vão. Praga tornou-se sede da residência imperial durante o seu reinado, propiciando o início de uma era de desenvolvimento para a cidade. Inaugurada em 1357, pelo próprio imperador Carlos, a Karluv Most foi incrementada ao longo dos anos, tendo recebido inúmeras estátuas barrocas – certamente menos impactantes e notáveis que as de Aleijadinho, em Congonhas/MG. Hoje, a ponte é exclusiva para pedestres e inúmeros turistas por ela circulam. Dela, pude admirar uma bela vista do rio Vltava, assim como do Teatro Nacional, da Catedral de São Vito e do Castelo de Praga, ao som de belas melodias tocadas por sanfoneiros que nela se estendem.

Após admirarmos a beleza da Ponte Carlos, eu, Alesek e Dennis entramos numa interessante loja de presentes. Um vendedor veio nos atender e, dando-se conta de minha nacionalidade, começou a conversar e apresentar os produtos falando um fluente português. Indaguei a respeito de sua naturalidade, desconfiando que era, assim como eu, brasileiro. No entanto, disse-me ser búlgaro. Hesitei-me, desconfiando que tudo não passava de uma brincadeira, enquanto me divertia experimentando um dos típicos chapéus de pele russos. Por um momento pensei comprá-lo, mas ao pensar que jamais o usaria no Brasil, a não ser em eventuais festas a fantasia, contentei-me com um broche a ele preso, para mim vendido, representativo do símbolo da ex-União Soviética.

Logo em seguida, rumamos em direção à Praça da Cidade Velha, cujas atrações turísticas visitara ontem. Incrivelmente, esta é a segunda viagem de Alesek a Praga, mas ao pensar, com meus botões, que estivera em São Paulo também em duas ocasiões, minha surpresa caiu por terra. Alesek, assim como eu, era um descobridor dos mistérios e belos cenários da capital de seu país. Tomamos um “capuccino” no Sagaffredo e, no cair da noite, pegamos o bonde em direção ao apartamento em que estamos hospedados. Não muito longe dali, há um “shopping center” e concordamos em assistir a um filme qualquer. Compramos as entradas, muito embora a sessão começasse em pouco mais de uma hora. Em tal intervalo de tempo, jantamos num restaurante sito nas redondezas. Experimentei mais um típico prato da República Tcheca: carne de porco frita coberta com queijo, acompanhada com fritas, tomate, pepino e cebola. Uma saborosa refeição, certamente mais gostosa que o almoço de hoje. Provei, ainda, o chopp tcheco e, como não tenho experiência na “arte de encher a cara”, pouca diferença senti em relação à bebida brasileira.

 

Deixamos o restaurante rumo ao cinema. Por um momento, pensei comigo mesmo se o filme era dublado ou legendado. Considerando a primeira hipótese, já cogitava de um cochilo de uma hora e meia – hum, se fosse o Titanic dublado em tcheco, três horas de sono cairiam muito bem após uma longa caminhada pela cidade e um jantar. O filme, no entanto, era em inglês e legendado em tcheco. Entramos no cinema, passamos pela bilheteria e perguntei alguma coisa qualquer, em português, a um funcionário. Claro, me diverti muito com a expressão de “não estou entendendo nada!” e meus amigos tchecos riram ao compreenderem a brincadeira. Na sala, procurei a melhor posição, para não perder uma linha sequer da legenda. E olha lá quem colocasse o cabeção na minha frente, hein! Pela primeira vez em toda minha vida, tive o prazer (?) de assistir a um filme, por completo, em inglês e sem utilizar legendas ou dublagem. Viva a América!

Terminada a sessão, cogitei pagar o estacionamento do shopping, pegar o meu carro e ir para casa. Dei-me conta, no entanto, achando graça, que estou no longínquo Leste Europeu. Saímos do cinema e caminhamos em direção ao apartamento no qual estamos hospedados. O magnífico Castelo de Praga nos aguarda para, neste sábado, ser desvendado e descoberto.

 

 

Outras fotos: http://andreoliveira.nafoto.net


 



Escrito por André Oliveira às 15h53
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 Praga, sábado, 10 de Fevereiro de 2007


Caros Amigos,

Após alguns dias sem qualquer contato pessoal com conhecidos, hoje, sábado, chegou de Ostrava meu amigo Alesek. Nos conhecemos na internet, na verdade. Muito antes de embarcar para a Europa, sempre tive o interesse de conhecer estrangeiros, de modo a pôr em prática meu inglês, ter um íntimo contato com diferentes culturas e, dada a eventualidade de realizar uma viagem para o exterior – hoje em curso –, poder encontrá-los pessoalmente. Ora, meus caros amigos, uma coisa é ir até uma agência de viagens e adquirir um pacote turístico que, dada uma imbecil comodidade, possibilita a qualquer pessoa viajar cercada de brasileiros e amplamente alienada por guias também verde-amarelos. Isso está ao alcance de muitos. Sempre tracei como meta a realização de uma viagem que fugisse de tal convencionalismo. Corri atrás de meu visto estudantil para entrar, legalmente, em território português, tracei meu roteiro de viagem, comprei minhas passagens áreas e terrestres e tratei de fazer ou tentar fazer contatos com pessoas locais em cada país que visitasse. Foi assim com Alesek e será assim com Ana, dentro de alguns dias, na Eslovênia. 

Fiz o meu “check-out” no albergue no qual estava hospedado, já que, nesta noite, dormirei no apartamento de um conhecido de Alesek, localizado na outra margem do rio Vltava. Nada mau, pois uma diária a menos diminui as despesas. Tomei o meu café e fui caminhando, portado de toda minha bagagem, em direção à estação Mustek, situada na não distante Praça Venceslau, onde, às 10h da manhã, eu e Alesek marcamos de encontrar. Considerando que a estação possui 4 saídas para a praça, não foi nada fácil achá-lo. Algumas ligações aqui, ali e outras acolá – utilizando os geralmente sucateados telefones públicos – facilitaram tudo e, finalmente, nos conhecemos, bem como Dennis, amigo de Alesek. Ambos são jogadores de “ice hockey”, uma das paixões nacionais dos tchecos.

Dirigimo-nos ao apartamento no qual estamos hospedados. Pegamos o metrô e constatei que o sistema de transporte público tcheco, diferentemente do brasileiro e do português, é ausente de qualquer fiscalização intensiva quanto à compra de bilhetes. Não há roletas, não há “catracas”, muito embora – e avisos alertam para tanto – guardas municipais podem requerer dos utilizadores do serviço a exibição dos passes ou tickets, disponíveis para compra nas ruas e estações de metrô, ônibus ou bondes. Uma verdadeira lição de desenvolvimento humano.

Desembarcamos na estação Andel (anjo) e caminhamos rumo à residência, enquanto eu observava a popularidade dos automóveis Skoda, marca nacional. Alesek havia recebido as chaves de seu amigo, apesar de nunca ter ido ao local. De fato, eu, ele e Dennis nos surpreendemos ao chegar no apartamento, consistente num quarto-cozinha-banheiro, dada a sua patente desorganização. Aqui não há camas, tão-somente colchões infláveis e bóias de piscina. Para quem cogitava dormir em estações de trem ou em aeroportos, para economizar nas despesas, já que é regra universal de todo mochilão – jamais dos “genéricos” – viajar muito gastando pouco, não reclamei, pelo contrário, achei tudo ótimo, inclusive pelo fato de tudo estar fora de meus padrões. Há bóias, só falta a piscina e a sunga – e, claro, o memorável calor dos trópicos.

Após acomodar nossas bagagens, saímos para almoçar num “pub” situado a alguns quarteirões dali. Estando o restaurante localizado fora da região turística da cidade, cardápio em inglês não existia e me senti como um verdadeiro “cego perdido em tiroteio”. Pedi aos meus amigos que escolhessem um prato para mim, embora, claro, tipicamente tcheco, acompanhado da tradicional Coca-Cola que, feita no Leste Europeu, acabava por ter um gostinho especial. Enquanto aguardávamos pela refeição, ao som da “pop music” americana, conversamos e presenteei os meus anfitriões com algumas moedas de Real, tiradas de minha carteira. Demonstrei o quanto nossa moeda é desvalorizada em relação ao Euro, pegando 2,80 reais e colocando sobre a mesa. A partir de hoje, iniciei minha coleção de aparadores de copos – aqui, enormes canecas, por ora jarras – de cerveja, cada qual representativa de uma das famosas marcas locais. Após alguns minutos, a nós foram entregues os pratos com o almoço: batatas assadas e uma espécie de carne de boi recheada com repolho. Vi, analisei, cheirei... A princípio, nada exótico. Experimentei. Nada mal, apesar de ainda preferir o tradicional bife acebolado com arroz, feijão e fritas. Ao final, nos foi trazida a conta e, considerando a desvalorização da Coroa Tcheca face ao Euro, paguei barato.

Saímos do restaurante e pegamos o bonde em direção a Mala Strana (ou Pequeno Quarteirão), tradicional bairro de Praga fundado em 1257, notório por suas igrejas, palácios e antigas casas com símbolos à porta. Iniciamos nossa caminhada pelas bucólicas colinas da região, cujos gramados e desfolhadas árvores de inverno dão um charme maior ao local. Do alto de Mala Strana, tem-se uma bela vista de Stare Mesto (Cidade Velha), localizada na outra margem do rio Vltava, assim como do vizinho Castelo de Praga. Tiramos inúmeras fotos, que, certamente, registrarão tal inesquecível momento. Ademais, subimos os incontáveis degraus da Torre Petrín (1891), de 60 metros de altura, uma verdadeira cópia da francesa Torre Eiffel. Ouvi, nas escadas, um grupo de brasileiros conversando com um sotaque paulista e, sem eles me verem, gritei, exclamando: “Ê paulistada!!!”. Do alto, uma visão panorâmica, em 360 graus, permite compreender a beleza da capital da República Tcheca.

(...)



Escrito por André Oliveira às 15h49
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Praga, sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

Caros Amigos,

Uma boa noite de sono é sempre essencial para um viajante. Acordei por volta das 10h e fui experimentar o café-da-manhã ofertado e incluso na diária do albergue. Uma refeição básica: leite, cereais e pães. Após experimentar o pão de sal tcheco, acredito não ter mais motivos para reclamar das padarias do meu bairro, em Belo Horizonte.

Iniciei minha caminhada em direção à Praça da Cidade Velha, que, segundo alguns guias turísticos, é considerada um dos espaços públicos mais agradáveis de toda a Europa. A Staré Mesto, ou Cidade Velha, surgiu a partir do século 11, quando os povoamentos em torno do Castelo de Praga, localizado na outra margem do rio Vltava, foram se espalhando pela região. Infelizmente, dei-me conta que a pobreza e a exclusão social também são traços presentes na República Tcheca, país reintegrado às práticas capitalistas desde o final da década de 80. Observei alguns poucos pedintes ao longo das ruas. Marcou-me a posição em que estes se colocam para clamar por esmolas.

A praça é, de fato, pitoresca, assim como a cidade em geral. Livre do trânsito, é cercada por igrejas, palácios e pequenas casas. A beleza do local me surpreendeu.

A Prefeitura da Cidade Velha, um dos edifícios localizados na praça, é um notável símbolo de Praga. Criada em 1338, ampliou-se ao longo dos séculos, aglutinando diversas tendências arquitetônicas. A torre, um dos destaques da construção, é de 1364 e, de seu topo, tive uma bela vista da cidade, especialmente dos seus inúmeros pontos turísticos. Os brasões nela afixados são muito interessantes, apesar de ofuscados pela grandeza da obra.

No entanto, a grande atração da velha prefeitura é, sem dúvida, o seu relógio astronômico. Construído em 1490, embora aperfeiçoado entre 1552 e 1572, o relógio marca o tempo de acordo com três calendários –  o da antiga Boêmia, o babilônico e o romano. Como não sou “expert” em história da relojoaria, já que, para mim, estudar as horas é, literalmente, perda de tempo, não consegui compreender o mecanismo como um todo. Claro, consegui visualizar as horas de acordo com o sistema atual, mas o relógio “3 em 1” tornou-se um verdadeiro “decifra-me ou te devoro”. Após admirar o engenho de Jan Táborsky, desviei minha atenção para o calendário, localizado logo abaixo, cujo mostrador foi concebido em 1866. Os 365 dias do ano – por favor, não venham me perguntar sobre os anos bissextos – figuram no imenso disco e uma pequena seta dourada aponta para o dia em questão. Um magnífico calendário, sem dúvida muito mais interessante do que as “folhinhas de papel”.

De hora em hora – além dos resultados parciais da Tele-Sena –, figuras articuladas mecanicamente aparecem acima do relógio da Prefeitura da Cidade Velha, atraindo uma grande multidão de turistas. O espetáculo é interessante, apesar de durar alguns poucos segundos, mas uma comparação inarredável com o presépio do Pipiripau, do Horto Florestal da UFMG, veio em mente e apercebi que este é, de fato, muito mais atraente.

Belas praças sempre são perfeitos cenários para belas fotos. Após ter concentrado a atenção na antiga prefeitura e seus atrativos, desviei as lentes de minhas câmeras para a gótica Igreja de Nossa Senhora Diante de Tyn (1365). Apesar de fechada, pude apreciá-la de fora. A Igreja de São Nicolau (1735), obra de Kilian Ignaz Dientzenhofer – o mesmo arquiteto do Palácio Kinsky, em estilo rococó do século 18, localizado no leste da praça –, afigurou-me mais interessante que a primeira. No lado sul da praça, situam-se inúmeras pequenas casas com seus respectivos símbolos identificadores, dentre elas a Casa do Carneiro de Pedra. No centro, ergue-se o monumento a Jan Hus, líder da reforma protestante no país, condenado, por práticas hereges, em 1415.

Caminhar pelas ruelas de Praga, especialmente aquelas destinadas a pedestres, é sempre uma experiência prazerosa e, portanto, inesquecível. A cidade possui metrô e bondes, mas acredito que um viajante somente ‘sente’ a cidade quando nela se incorpora e, para tanto, nada melhor que andar e desvendar lugares por ele até então desconhecidos.

Utilizando um bom e prático guia turístico, informei-me que, na Idade Média, a comunidade judaica de Praga vivia confinada num gueto, onde hoje se localiza o bairro judeu Josefov, também situado na Cidade Velha. Ao longo de muitos anos, a comunidade esteve submetida a leis opressoras e vexatórias. No século XVI, por exemplo, os judeus eram obrigados a usar um círculo amarelo identificador em suas roupas, o que relembra, indubitavelmente, as cenas da primeira metade do já não distante século XX. José II, governante no final do século XVIII, abrandou a discriminação e, desde então, o bairro recebeu o seu nome, numa singela homenagem. No final do século XIX, as autoridades municipais de Praga demoliram boa parte dos guetos existentes, mas muitas sinagogas e o velho cemitério foram preservados.

Avistei uma estátua dedicada a Franz Kafka, autor tcheco, e vi a mais antiga sinagoga do continente europeu, a Sinagoga Staronová (1270), que sobreviveu a incêndios e a massacres anti-semitas. Visitei o Velho Cemitério Judaico, fundado em 1478, local que, durante 300 anos, foi o único espaço onde os judeus da região podiam ser sepultados. Obviamente, devido à pequena área, enterravam-se os mortos em camadas (cerca de doze), uns encima dos outros. Hoje vêem-se 12 mil lápides correspondentes a cerca de 100 mil pessoas. Ao lado do cemitério, há um museu dedicado à memória dos judeus tchecos mortos durante a onda anti-semita que assolou o país no século passado.

Após ter passado a tarde visitando interessantes pontos turísticos, fiz um lanche e voltei ao albergue. À noite, saí com um grupo que se hospedava no mesmo local. Fomos a um “pub” em Praha 3, uma das várias regiões em que se divide a cidade.

Amanhã chegará de Ostrava, terceira maior cidade da República Tcheca, meu amigo Alesek. Encontraremo-nos na Praça Venceslau e visitaremos outras famosas atrações de Praga.

                                                  

Outras fotos: http://andreoliveira.nafoto.net

 



Escrito por André Oliveira às 15h33
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(...)

Pronto. Agora sim estava com o endereço em mãos: Sokolská, 11, Nove Mesto (ou “Cidade Nova”). Dirigi-me ao albergue, ou “hostel”, claro, sempre com o memorável sotaque britânico. Percebi que ter um endereço e um mapa não é a mesma coisa de ter um queijo e uma faca na mão. Ainda tive que pedir informações aos transeuntes e, após uma caminhada pouco prazerosa, dado o frio – cerca de 5 graus positivos –, o gélido vento e a garoa, cheguei ao albergue da Hostelling International. Fechado, devido à baixa estação. Lição número 1: sempre utilize um telefone público para confirmar se o albergue pretendido está ou não em funcionamento. O atendente me indicou um outro “hostel”, perto dali, anotando, em meu mapa, o nome da rua – lição número 2: nunca tente guardar nomes de rua em tcheco, você certamente esquecerá dentro de 5 minutos, ou menos –, muito embora não tenha me dado o exato número do edifício. Continuei minha jornada. Procurei, procurei, procurei e não achei o maldito albergue. Já estava literalmente cansado e entrei no primeiro albergue visto, apostando todas as minhas fichas no que iria encontrar pela frente. Com sorte, fiquei num quarto que, apesar de triplo, não possuía nenhum hóspede. Não havia armários, ou “lockers”, onde pudesse deixar, com segurança, minha bagagem, mas a mantive fechada com o cadeado utilizado para despachá-la nos aeroportos. O casarão era antigo e os banheiros não eram muito agradáveis, apesar de limpos, mas pagar 15 euros para ter um teto, por uma noite, na Europa, não é para se queixar.

Após ter me alojado, iniciei uma “caminhada de reconhecimento” da capital tcheca, apenas nas proximidades do albergue. Este localiza-se a dois quarteirões do Museu Nacional, situado na célebre Praça Venceslau, palco da Revolução de Veludo (1989), que deflagrou o fim do comunismo na ex-Tchecoslováquia. A praça hoje contém inúmeras lojas, hotéis, restaurantes e “cabarets”, bem como a imponente estátua de São Venceslau (1912), padroeiro da Bôemia – uma das duas regiões em que se divide o país. Príncipe da dinastia dos Premíslidas, Venceslau fora morto no ano 935 pelo próprio irmão, dadas disputas pelo poder.

O Museu Nacional é fabuloso pela sua grandiosidade. Terminado em 1890, tornou-se símbolo de prestígio nacional, numa época em que a República Tcheca encontrava-se – até 1918 – sob o domínio dos Habsburgos austro-húngaros. Avistei, ainda, o colorido e vívido Hotel Europa (1906).

Passei o fim de tarde e parte da noite caminhando ao longo da extensa Praça Venceslau e experimentei um verdadeiro hot-dog daquela região: um pão de sal com uma gigante lingüiça. Inesperadamente, ouvi um grupo com um sotaque familiar. Cearenses em Praga, também viajantes. Conversamos enquanto comíamos e falamos das experiências vividas até então.

Após ter empanturrado com aquele gigante hot-dog, tomei o rumo do “hostel”, enquanto passava por diversos oferecedores de maconha ou algo do gênero, algo comum na cidade. Observei o quanto o povo tcheco é, digo, nojento. Eles gospem na rua sem qualquer cerimônia e desafio quem, eventualmente, visitar Praga: se não achar um guspe a cada dez passos que der, certamente você não está na cidade. Ademais, outros dois fatos me chamaram a atenção: primeiramente, vende-se absinto em lanchonetes tal como refrigerantes ou água mineral. Segundo, ao passar pela estação de metrô Mustek, a fim de cortar caminho rumo ao meu albergue, presenciei, surpreendentemente, um grupo de jovens se drogando com completa liberdade. E nada de maconha, meus caros, mas sim drogas injetáveis. Acredito que, além de um pavoroso fato, há um verdadeiro contexto social envolvido, fazendo daquela cena algo indubitavelmente marcante.

Cheguei ao albergue e, lembrando-me da necessidade de comprar uma pasta de dente, saí em busca de uma farmácia ou drogaria. Perguntei a um grupo de senhoras que esperava pelo bonde sobre a existência de uma “drugstore” na região. Elas, creio eu, olharam-me com certo repúdio e ainda restam-me dúvidas se pensaram ou não em uma loja (“store”) de drogas (“drugs”), no sentido literal da expressão. Finalmente, encontrei uma farmácia, muito embora estivesse fechada. Decidi retornar ao albergue e comprar o produto no dia seguinte. Na volta, avistei um pequeno garoto que se divertia com sua inseparável bola de futebol. Aproximei-me e disse ser do Brasil. Ele não me entendeu e, tentando explicar-lhe, fiz alguns movimentos com os pés, simulando algumas embaixadas e chutes, os quais, obviamente, expressam a maior paixão brasileira. O pequeno garoto permaneceu confuso e foi então que tirei de minha carteira uma figurinha com a foto da seleção verde-amarela. Ele pegou para si e continuou a caminhar, pensando ser um presente. Claro, não o era, e pedi, educadamente, de volta.

Continuei a caminhar em direção ao albergue e cá estou a escrever tal memorando. Nesta sexta-feira, conhecerei mais desta incrível e misteriosa cidade que vem me proporcionando experiências certamente inesquecíveis.
 

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Escrito por André Oliveira às 15h33
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Praga, quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007

Caros Amigos,

Escrevo da magnífica, histórica e pitoresca Praga. Parti de Genebra pela manhã, num vôo direto para a capital da República Tcheca. Desembarquei no aeroporto internacional, peguei minha bagagem e dirigi-me ao saguão principal do terminal de passageiros, de modo a trocar Euros por Coroas tchecas, buscar informações acerca das alternativas de meios de transporte que me levassem até o albergue almejado e, finalmente, ligar para a casa, a fim de dizer que minha viagem ocorria dentro dos conformes. O inverno europeu, certamente em razão das previsíveis, mas insolucionáveis mudanças climáticas, está muito mais ameno no corrente ano e, incrivelmente, tenho em Praga, cidade localizada na Europa Central, a mesma sensação térmica que tive em Lisboa, antes de partir. Nada de nevasca, mas sim temperaturas na casa dos 5 graus celsius positivos.

As primeiras experiências são verdadeiras lições para as subseqüentes. Sou marinheiro, digo, mochileiro de primeira viagem e realizo tal jornada completamente sozinho, muito embora aqui, na República Tcheca, encontrarei com meu amigo Alesek e há sempre pessoas a serem conhecidas nos albergues nos quais me hospedarei. Nunca carreguei nas costas uma mochila de grandes dimensões e, por mais que essa tenha grande tecnologia de redução de esforço e impactos, saber usá-la é essencial, especialmente saber regular suas alças e tiras. Creio, dada minha pouca experiência no assunto, ter atado demasiadamente as alças junto ao peito e, consequentemente, ao longo do dia, uma forte dormência no braço esquerdo me acompanhou. No entanto, nada veio a atrapalhar o início de minha viagem em Praga.

Fazendo referência à minha desatenção, perdi meu sweater na aeronave e entrei em contato, ainda no aeroporto, com o serviço de informações ao passageiro. Disseram-me, num primeiro momento, que nenhum objeto perdido foi detectado. Uma atenciosa senhora deu-me o seu telefone de tal maneira, no dia seguinte, a voltar a acionar o serviço e requerer informações sobre o paradeiro de minha roupa. Ora, imaginei que esta ainda estava no Airbus que me trouxera para a capital tcheca e, devido ao fato de aviões de companhias aéreas de baixo custo estarem mais no ar do que em terra, permitindo tarifas tão acessíveis aos usuários, já imaginava meu sweater trafegando pelo espaço aéreo de um país qualquer da União Européia. Às vezes admiro minha esperteza e, para ser sincero, confesso ter perdido, mais tarde, o número do telefone para o qual uma simples ligação poderia recuperar minha estimada roupa. Estava em Praga e não iria perder tempo – “keep going”.

Saí do aeroporto em busca do ônibus que me levasse até a estação de metrô mais próxima. O primeiro desafio foi comprar uma passagem através da incompreensível e indecifrável máquina de venda eletrônica. Para complicar minha vida, a máquina somente aceitava moedas e eu só portava notas de “Coroas tchecas” – já dizia o célebre refrão “panela véia é que faz comida boa!”. Pedi ajuda a uma jovem que aguardava pelo transporte, e, a partir de então, fiquei impressionado com a atenção do povo local, ou parte dele, ao turista estrangeiro. Expliquei, em inglês, toda a situação e ela se dispôs a resolver o meu problema. Enquanto tentava adquirir, para mim, uma passagem, o ônibus chegou ao ponto. A máquina sequer cooperou e a situação permaneceu indefinida. Decidimos entrar no veículo e comprar o meu bilhete, diretamente, através do motorista. Dirigi-me até a parte frontal e entreguei uma nota ao condutor. Aquele fez uma espécie de sinal negativo. Mais tarde, percebi que não havia troco para a relativamente grande nota que entregara. Acabei indo do aeroporto à estação de metrô sem ticket, sem pagar. 0800. Nada mau. Cito, ainda, uma afável passageira, senhora na casa de seus 70 anos, que me cedeu o seu bilhete de metrô, válido por mais duas horas, sem utilidade para ela. Não recusei a oferta e agradeci, um pouco sem jeito, enquanto continuava observando a compleição física dos habitantes de Praga.

Desembarquei na estação Mustek, na Praça Venceslau. Um grupo de estudantes olhou-me admirado, claro, nada entendi o que comentaram a meu respeito, mas percebi que exclamaram um “Nossa!”, ou algo do gênero, já que, certamente, observaram a bandeira brasileira amarrada junto à mochila.

Tinha, em mãos, um mapa da cidade, mas não o exato endereço do albergue pesquisado na internet. Eita! Precisava encontrar uma lan house, enfim, ter acesso a um computador para tomar nota do exato local. Entrei numa livraria onde talvez, por um milagre, soubessem me informar o paradeiro do albergue que, já sabia, não estava longe dali. A atendente pouco falava inglês. Um senhor aproximou-se e ofereceu-me ajuda. Era britânico, o sotaque não negava. Indaguei quanto à existência de um “hostel” nas redondezas. Ele não entendeu e, então, repeti: “hostel”. Com muita dificuldade – ou seria falta de esforço? – ele percebeu e corrigiu minha pronúncia, considerando o meu inglês eminentemente americano.  Por um momento, pensei: “estou aqui com uma mochila enorme, sem saber ainda onde ficar, com fome e este senhor vem me dar lições de como falar o legítimo e tradicional inglês britânico?”. Por fim, nada resolvido. Continuei andando pela rua Vodickova e avistei um McDonald’s. Fome. Entrar num “fast-food” americano em plena República Tcheca parece piada, mas quando se tem fome e certeza de que ali há algo conhecido para comer facilita bem as coisas. O homem sempre está em busca de segurança. Chegar num país estranho, com pessoas falando uma língua incompreensível, não é fácil, ainda mais quando, na minha situação, ainda estava ligeiramente cansado da viagem, bem como desconhecia o local onde iria passar a noite. Claro, nesses aspectos, não arriscaria, de imediato, a entrar num restaurante que ofertasse comidas locais.

Quando disse que o povo local é hospitaleiro, faço, agora, uma nova referência comprovativa de tal constatação. Após ter pedido um McRoyal, vi que, na mesa ao lado, um jovem portava um laptop com acesso à internet sem-fio. Aproximei-me, perguntei se o mesmo falava inglês e solicitei, sem qualquer cerimônia, o uso de seu computador para consultar um endereço. Positivo. Olha, realmente admiro a minha cara-de-pau – mas que nada, não tinha nada a perder! Como me disseram antes de embarcar para a Europa, eu, aqui, sou um completamente desconhecido. Ninguém sabe o meu nome, ninguém sabe de minha história e, portanto, posso dizer que me chamo João ou Manuel, para não fugir dos típicos nomes portugueses.

(...) 



Escrito por André Oliveira às 15h31
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Genebra, quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2007


Caros Amigos,


Hoje, quarta-feira, dia 7 do mês de Fevereiro, inicio minha viagem pela Europa Central, antes do começo de minhas aulas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que ocorrerá no dia 26 daquele mês.

Confesso que nada dormi na véspera do início de meu “mochilão”, não em razão de eventual ansiedade ou coisa do gênero, longe disso, mas sim pelo medo de dormir mais do que a cama e, consequentemente, perder meu vôo com destino a Genebra, com partida marcada para as 8h20min da manhã de quarta-feira. Passei a madrugada ajeitando meus equipamentos fotográficos e arrumando a minha grande mochila de 75 litros. Não economizei nas roupas de frio, aliás, havia grande expectativa quanto ao tempo na Europa Central – frio? Neve? A falta de internet em minha nova casa, em Lisboa, e a impossibilidade de assistir ao “Weather Forecast” da CNN levaram a uma grande incerteza quanto às condições meteorológicas nas cidades a visitar. Ora, frio é o de menos, é só bem se agasalhar. O que interessa e o que importa é um fenômeno chamado chuva. Sim, esta estraga qualquer viagem.

Saí de casa com destino ao aeroporto de Lisboa. Peguei o “carris”, ou ônibus, e, em poucos minutos, cheguei ao terminal. Muitas pessoas olhavam, com atenção, minha grande mochila. Parecia eu uma tartaruga com um casco gigante. Claro, passaria 18 dias viajando e roupa de frio ocupa – e como ocupa! – muito volume. Certamente, “mochilar” no verão é bem mais tranqüilo. Mas o que mais chamava a atenção era um pequeno detalhe: a bandeira do Brasil amarrada junto à bagagem. No dia anterior, as seleções de futebol do Brasil e de Portugal participaram de um amistoso na Inglaterra (mas, ó céus, por que na terra de Vossa Majestade?) e os portugueses venceram. Hum... Atrevido demais um brasileiro com a bandeira de seu país em Lisboa.

Praga, capital da República Tcheca, seria o ponto de partida de minha viagem. Como não há vôos diretos de Lisboa a Praga pela companhia aérea de baixo-custo EasyJet, peguei um avião com destino a Genebra. Fiquei na cidade suíça durante 1 dia e, na quinta-feira, dia 8, parti rumo a Praga. Aliás, diga-se de passagem, a supracitada companhia é ótima – aviões novos, pontualidade e tripulação atenciosa são marcantes. Claro, serviço de bordo não há, já que é uma viação aérea “low fare”, mas os preços baixos compensam o esforço dos mais “gulosos”.

Genebra, Suíça, mundialmente conhecida cidade às margens do Lago Léman. Após XX horas de vôo, a aeronave aterrisou no aeroporto local. Chuva, infelizmente. A garoa e o frio impossibilitariam que eu bem conhecesse Genebra. Após ter passado, tranquilamente, pela alfândega – a primeira das 10 vezes que calculei, ao longo de toda minha viagem (a minha coleção de carimbos das imigrações estava só começando...) –  peguei minha bagagem, troquei parte de meus “traveller cheques” por francos suíços e dirigi-me até um posto de informação turística, em busca de um albergue na cidade. Olhem, viajarei durante 18 dias sem ter reservado 1 cama sequer. Claro, aqui é inverno, baixa estação, mas há sempre um pingo de risco, inafastável, mas que eu ignoro. Na próxima, prometo que não farei o mesmo.
Peguei um confortável trem que me levou até a estação Gare Cornavin. Daqui, a apenas alguns quarteirões, situa-se um dos albergues da Hostelling International, organização internacionalmente reconhecida e creditada. Para lá fui caminhando e admirei-me com o desenvolvimento da cidade suíça. Os belos e antigos edifícios ao longo da Rue de Lausanne, os modernos bondes, elétricos e não-poluidores, assim como os bem vestidos transeuntes e o desfile de carros importados não propiciaram qualquer dúvida: a Suíça é um país de primeiro mundo e Genebra, cujo idioma predominante é o francês, goza de um notável desenvolvimento socioeconômico.

Cheguei ao albergue, fiz o meu check-in e fui até o meu dormitório, que consiste em 3 beliches, ou seja, 6 camas. Divido o quarto com um chinês e um americano e, mais do que nunca, observando a quantidade de chineses neste albergue, dei-me conta que a China já está dominando o mundo. Salve-se quem puder! Para não deixar ninguém no Brasil preocupado, fiz minhas ligações internacionais de rotina e sempre prendia a respiração na hora de o telefone devolver as moedas. Há telefones públicos na Europa que funcionam à base de moedas comuns. É simples: você deposita os seus euros no compartimento apropriado, faz a sua ligação e, ao final, se sobrar “créditos”, o telefone “gospe” o dinheiro que sobrar. Claro, há sempre casos horrendos de o telefone cismar ficar com sua prata de 1 euro e aí, meus caros amigos, só resta chorar – porque chamar o fabuloso Graham Bell de todos os nomes possíveis não adianta.

Após ter almoçado, decidi subir a colina que me levaria até a Cidade Velha. Portava um mapa da cidade, mas informações dos habitantes locais sempre é necessária. Um simpático jovem casal, no ponto do bonde, deu-me dicas de como chegar ao local pretendido. Desembarquei no local indicado, mas o frio e a chuva estavam contra mim. O vento gelado cortava e queimava meu rosto – foi então que percebi o porquê das bochechas vermelhas dos europeus, no inverno – e temi não ter mais minhas úteis mãos. Estava bem agasalhado, claro, mas há partes do corpo que acabam por ficar desprotegidas. Acabei por desistir de minha jornada e voltei para a Rue de Lausanne, por onde perambulei ao longo do resto do dia. “Vitrinei”, na verdade, verdadeiro programa de índio na Europa. Passei por lojas, inclusive por uma concessionária da Ferrari – se aceitassem cheque do Banco do Brasil / Conta Universitária, até que levaria uma vermelha que estava no fundo da loja –, e, no final da noite, comi uma panqueca e matei minha fome.

Claro, Genebra ainda está para ser verdadeiramente conhecida e descoberta, mas é tão somente uma questão de tempo. Aliás, aqui estou por não haver vôos diretos de Lisboa a Praga, pela companhia aérea escolhida. Agora é preparar para desembarcar na capital da República Tcheca, cuja história e beleza certamente propiciarão um verdadeiro início de uma incrível viagem.



Escrito por André Oliveira às 15h42
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Lisboa, terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

Caros Amigos,

Ontem, segunda-feira, dia 5, dirigi-me à Universidade de Lisboa (UL), localizada a 5 minutos de minha casa. A Universidade é linda, prédios horizontais contemporâneos marcam a arquitetura do local. A Faculdade de Direito fica ao lado da Reitoria, em frente da qual um imenso gramado se abre em direção à Avenida do Brasil.

Após ter tirado algumas fotos dos edifícios, procurei por Rosa Guerreiro, chefe do gabinete Erasmus da UL. "Rosa Guerreiro não está, Rosa está doente, não pôde vir", fui informado na sala ao lado do gabinete Erasmus, fechado. Pensei com os meus botões: "Até aqui essa mulher é difícil de achar", claro, fazendo alusão às diversas vezes que liguei, do Brasil, e não a encontrei. Minha matrícula, portanto, somente poderá ser feita mais tarde, quando ela estiver de volta. Ainda na FDUL, encontrei-me com André Saddy, carioca e mestrando na faculdade, bem como membro do Núcleo dos Estudantes Luso-Brasileiros (NELB). Ele me passou algumas dicas sobre a cidade e me apresentou uma gaúcha, com um sotaque sensivelmente irritante, que tento reproduzir com essa marcante frase: "Moro num tri-apartamento, com um casal tri-legal e que tem uma tri-confiança em mim!". Fiquei impressionado, vixe. Almocei no bandeijão da universidade, comendo bem e pagando pouco, 2 euros.

À noite, dei uma passeada pela região da Baixa-Chiado, marco do planejamento urbano português, visto que Marquês de Pombal, após o terremoto de 1755, reconstruiu o centro da cidade por meio de uma disposição quadriculada das ruas, ligando a Praça do Comércio à Praça do Rossio. Finalmente tive contato com os principais e encantadores pontos turísticos de Lisboa. Visitei a Praça do Comércio, a tradicional Rua Augusta, o Rossio e a Praça da Figueira. Inúmeros transeuntes, incluindo estrangeiros, circulam por tais regiões, com segurança.

A Praça do Comércio é marcante por sua grandeza. Essa área abrigou o Palácio Real por 400 anos, a partir do momento em que esse foi transferido do Castelo de São Jorge, em 1511. O primeiro palácio acabou destruído pelo terremoto de 1755. Um substituto foi erguido em seu lugar e, desde 1910, tal área abriga escritórios do Poder Executivo português, como o Ministério da Justiça.

O Rossio é uma praça elegante que oferece cafés e pastelarias, com as típicas mesinhas ao longo das calçadas. Na parte norte, localiza-se o Teatro Nacional.

Abaixo, algumas considerações:

POVO

Os portugueses são geralmente claros, com cabelos escuros, e possuem estatura mediana, diferentemente dos altos e loiros europeus setentrionais. Há muitos africanos na cidade, especialmente aqueles provenientes de Angola e Moçambique. Inúmeros brasileiros podem ser encontrados exercendo variadas funções, muito embora os trabalhadores assalariados predominam.

A média de idade é elevada, isto é, há muitos idosos em Lisboa, assim como em outras cidades da Europa Ocidental, não obstante jovens com seus brincos, piercings e jeans circulam à vontade pela capital portuguesa.

Os portugueses são extremados: ora são atenciosos e prestativos com o estrangeiro, com bom trato ao conceder informações, ora são ríspidos e mal-educados. Assim, não generalize o povo português (ou qualquer nacionalidade) tendo como base e pressuposto o primeiro cidadão com o qual tiver contato.

TRANSPORTE

A cidade dispõe de uma variada gama de transportes públicos. O metrô, contendo modernas instalações, possui uma rede satisfatória, muito embora não atinja o aeroporto internacional. Há bondes, ''auto-carros'' (ônibus) e o ''comboio'' (ônibus que liga Lisboa a cidades da região metropolitana).

Carros? As marcas francesas e alemãs predominam, assim como em boa parte da Europa. Há muitos carros orientais e, diga-se de passagem, Honda Fit aqui é Honda Jazz. Muitas novas versões aqui já foram lançadas, como a do Renault Clio, Renault Scénic e VW Golf.

ENERGIA E ÁGUA

As casas e apartamentos dispõem de sistema a gás, por meio do qual a água é aquecida para uso durante o inverno. Não há filtros, e confesso que ainda não tive coragem de abrir a torneira da cozinha ou do banheiro e encher um copo para beber. Aqui, paga-se apenas pelo uso/consumo de luz e água e os preços são baixos, a propósito.

ALIMENTAÇÃO

Uma ida ao supermercado ''Jumbo'', para abastecer a minha cozinha, fez-se necessária. Digo que não é fácil examinar as prateleiras e ter pouco conhecimento sobre as marcas de produtos ofertados. Frutas tropicais, pães de todos os tipos, carnes, peixes, laticínios, enfim, parecia estar no Carrefour do BH Shopping. Dificuldades com alimentação certamente não terei. E uma grande surpresa na seção de biscoitos - bolachas Nestlé importadas do Brasil, incluindo... Passa-Tempo!!! Ok. Agora só falta encontrar Guaraná Antártica para eu dormir sossegado.



Escrito por André Oliveira às 01h43
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Pela janela do Airbus, presenciei o nascer do sol no hemisfério norte. Pouco tempo depois, a tripulação informou-nos sobre o início do procedimento de aterrissagem. Por volta das 10 horas da manhã do domingo, dia 4, cheguei em Lisboa. Uma forte névoa encobria a cidade e pensei, ironicamente, se estava em Lisboa ou em Londres. Após sair da aeronave, o típico vento gélido europeu atingiu meu rosto e, finalmente, dei-me conta que realmente estava na... Europa! Um pequeno ônibus levou os passageiros para a área de desembarque internacional. Passei, tranquilamente, pela alfândega, diferentemente de minha viagem aos EUA, em 2001, e, logo em seguida, após longa espera, recolhi minhas 2 grandes malas que, graças a Deus, não foram parar na Islândia ou na Letônia. Aliás, diga-se de passagem, não foi nada fácil transitar com 2 carrinhos de bagagem, cada qual com uma de minhas 2 malas. Obviamente, nem em Lisboa e, muito menos, em São Paulo não houve uma viva alma que se dispôs a me ajudar. Mas tudo bem... Restava-me procurar um táxi que me levasse até minha nova "morada".

Cheguei à rua Afonso Lopes Vieira, 46, bairro do Campo Grande. D.Maria José, senhora que me aluga o apto., me esperava à janela. Confesso que foi uma verdadeira cesariana a subida de toda minha bagagem até o 2o andar do meu novo prédio. Após levar toda a "tralha", ainda "bufando" de cansaço, D.Maria apresentou-me, atenciosamente, todo o apartamento. Os móveis antigos e as várias fotografias de família dão um ar de "casa da vovó", ou algo do gênero. Muito aconchegante o meu novo lar, confesso. Marinheiro de primeira viagem, não faltaram alguns imprevistos, a começar pelas diferenças do português luso em relação ao português brasileiro. Mas consegui entender todo o "flat tour". Claro, sair de casa não é sempre fácil. Não há chuveiro no meu novo apartamento e, me disseram, que em toda a Europa o sistema é o mesmo: banheira com chuveirinho. "Se quiseres molhar a cabeça, suspendas o chuveirinho, ora pá!". Isso me pareceu, à primeira vista, algo mais complicado que azeitona em boca de banguela, mas com o tempo fui-me acostumando com o "banho europeu". Aliás, diga-se de passagem, água quente aqui depende de aquecedor a gás. O apto. de D. Maria José fica no bairro do Campo Grande, "zona", ou seja, bairro (não moro em zona, ora pois!) de classe média da cidade. Algo interessante é que os prédios antigos não possuem garagem e os carros de seus moradores ficam estacionados encima do passeio de pedestres. Na proximidade de minha nova residência, há um comércio significante: uma pequena farmácia, uma pequena loja de materiais elétricos, um café, agência de viagens e até um banco Santander. A Avenida do Brasil, obviamente, mais segura que a homônima carioca, fica próxima, assim como a tradicional "Avenida de Roma".

Acredito eu que não há pior dia para se chegar numa cidade européia, ainda mais quando se está de mudança, do que o domingo. Quase tudo fechado. Saí, à noite, para procurar uma "lan house". Como encontrar uma, em funcionamento, no pleno domingo? Um outro parto, ou melhor, uma nova cesariana. Inicialmente, peguei o metrô na estação "Alvalade", próxima ao meu apartamento. Foi o meu primeiro contato com o transporte público português. Entrei na estação, logo em busca de um gichê para compra de bilhetes. Não encontrei. Percebi-me que estou no Primeiro Mundo e dirigi-me à uma máquina eletrônica. Depositei uma nota de 10 euros, mas a máquina não a aceitou. Tive, então, que trocar minha nota, por duas de 5 euros, por exemplo. Fiquei constrangido de solicitar a algum transeunte, e, então, voltei à rua e procurei alguma loja ou mercearia. Tudo fechado. Avistei o "Consulado americano" e fui até ele, trocar meu dinheiro. "Consulado americano?", indaga o leitor. Mc Donald’s, vou ser mais preciso. Lá consegui trocar minha nota e, finalmente, pude adquirir meu bilhete, assim como se compra uma latinha de Coca-Cola na máquina de guloseimas de um shopping brasileiro. Desembarquei na estação "Roma", próxima ao centro histórico de Lisboa. Minha busca por uma "lan house" continuava. Busquei informações nas pequenas pastelarias e lanchonetes abertas. Ora, digo que, em Lisboa, se quiseres achar algum lugar, vale o brocado "quem tem pernas vá a Roma". Não adianta bocas para requerer informações. Os portugueses são péssimos para dizer algo da cidade onde eles próprios vivem. "Não sei, não conheço nada por aqui". Sim, isso foi a resposta com a qual fui "agraciado" após perguntar para uma sra. sobre algum local onde eu pudesse acessar a internet. Deu vontade de responder, "Ora, se não conhece nada por aqui, imagine eu!". Finalmente, em uma pastelaria, um educado jovem funcionário me informou que uma lan house havia em um shopping próximo. Iniciei minha jornada noturna até o centro comercial Amoreira. Claro, estou na Europa, mas andar à noite nunca é recomendável. Enfim... Cheguei até o shopping. Aliás, o mundo sempre acaba em shoppings, além de pizzas, claro, se bem que sempre há uma pizzaria dentro de um. Lojas imponentes encontrei, como Hugo Boss, Lacoste e... O Boticário! Meus Deus, Boticário em Lisboa... Claro, onde há brasileiros, há lojas de brasileiros.

Há um detalhe a ser mencionado. As escadas rolantes portuguesas são em mão-inglesa. Isso é muito importante para turistas brasileiros que desejavam visitar o país. Sobe-se pela esquerda, desce-se pela direita. Claro, na primeira vez, quase levei um "trupicão", mas hoje já me acostumei com o sistema.



Escrito por André Oliveira às 01h43
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Lisboa, segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007

Caros Amigos,

Escrevo da capital portuguesa, a mundialmente conhecida Lisboa, cidade que me abrigará durante os próximos 6 meses. Como deve ser do conhecimento de todos, sou bolsista na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. A mobilidade estudantil faz-se através do programa SÓCRATES/ERASMUS da União Européia (UE), que tem o objetivo de fomentar a qualidade e reforçar a dimensão européia no ensino superior, incentivando a cooperação transnacional entre universidades. Aqui cursarei algumas matérias, dentre elas Direito Ambiental, Filosofia do Direito, Direitos Fundamentais, Direito Internacional Privado e Relações Internacionais.

Parti de Belo Horizonte no sábado, dia 3, pela manhã, rumo a Guarulhos (SP). Considerando os recorrentes problemas do controle de tráfego aéreo brasileiro, preferi embarcar para a capital paulista com algumas horas de antecedência em relação à saída de meu vôo com destino a Portugal. Como preciso fazer economias, já que minha calculadora, ultimamente, apenas faz multiplicações na casa dos 2.80, decidi comprar um bilhete da GOL, companhia que me oferecia, no sábado, dia 3, duas opções, promocionais, de passagens – 8h50min e 19h. O meu vôo para Lisboa, pela TAP, estava marcado para as 22h. Seria demasiadamente arriscado chegar em São Paulo às 20h. Resultado: saí de Belo Horizonte às 8h50min, com destino a Guarulhos e 12 horas de espera seguir-se-iam até o embarque no moderníssimo Airbus da companhia aérea portuguesa.

Inesperadamente, na sala de embarque de Confins, encontrei-me com Clarissa, aluna do 8o período do curso de Direito da UFMG. Ela seria minha companheira nas longas horas de espera em Guarulhos, muito embora o bate-papo entre nós ajudou a amenizar a impaciência.

O vôo 194 da TAP tinha saída marcada para as 22h. Entretanto, a decolagem somente ocorreu por volta das 22h40min. O atraso ocorreu porque um passageiro foi, forçadamente, retirado da aeronave por "portar dispositivos perigosos em sua bagagem de porão". Resultado: longos 30 minutos, em terra, dentro de um avião lotado, até que a mala do infeliz foi achada no compartimento de bagagens. Um "pequeno pormenor" (expressão que, estranhamente, dá nome a uma loja aqui em Lisboa): o ar condicionado esteve desligado durante todo esse tempo, não faltando reclamações dos passageiros brazucas aos queridos e simpáticos tripulantes portugueses.

A viagem foi calma. A aeronave cortou parte de minha nação, atravessando Minas Gerais e o interior nordestino, e, finalmente, adentrou-se na imensidão do Atlântico Norte. Era noite, e, portanto, não pude avistar nada dos 12 quilômetros acima do solo. Monitores de vídeo individuais em cada poltrona permitiram acompanhar a rota do avião. Alguns filmes jurássicos (algo típico de companhias aéreas) passaram, mas nenhum segurou minha atenção. As horas se passaram e o sono, por conseguinte, chegou. Como dormir num esdrúxulo espaço de 3a classe? Fui me ajeitando e conseguir tirar uma soneca. Acordei no meio da madrugada e ainda faltavam cerca de 2 horas e meia de vôo. Decidi ficar acordado e aguardar a chegada. A partir de então, a aeronave passou rente à costa africana, bem como acima de diversas ilhas atlânticas, desconhecidas por mim, até então.



Escrito por André às 23h35
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