Lisboa, terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007
Caros Amigos,
Ontem, segunda-feira, dia 5, dirigi-me à Universidade de Lisboa (UL), localizada a 5 minutos de minha casa. A Universidade é linda, prédios horizontais contemporâneos marcam a arquitetura do local. A Faculdade de Direito fica ao lado da Reitoria, em frente da qual um imenso gramado se abre em direção à Avenida do Brasil.
Após ter tirado algumas fotos dos edifícios, procurei por Rosa Guerreiro, chefe do gabinete Erasmus da UL. "Rosa Guerreiro não está, Rosa está doente, não pôde vir", fui informado na sala ao lado do gabinete Erasmus, fechado. Pensei com os meus botões: "Até aqui essa mulher é difícil de achar", claro, fazendo alusão às diversas vezes que liguei, do Brasil, e não a encontrei. Minha matrícula, portanto, somente poderá ser feita mais tarde, quando ela estiver de volta. Ainda na FDUL, encontrei-me com André Saddy, carioca e mestrando na faculdade, bem como membro do Núcleo dos Estudantes Luso-Brasileiros (NELB). Ele me passou algumas dicas sobre a cidade e me apresentou uma gaúcha, com um sotaque sensivelmente irritante, que tento reproduzir com essa marcante frase: "Moro num tri-apartamento, com um casal tri-legal e que tem uma tri-confiança em mim!". Fiquei impressionado, vixe. Almocei no bandeijão da universidade, comendo bem e pagando pouco, 2 euros.
À noite, dei uma passeada pela região da Baixa-Chiado, marco do planejamento urbano português, visto que Marquês de Pombal, após o terremoto de 1755, reconstruiu o centro da cidade por meio de uma disposição quadriculada das ruas, ligando a Praça do Comércio à Praça do Rossio. Finalmente tive contato com os principais e encantadores pontos turísticos de Lisboa. Visitei a Praça do Comércio, a tradicional Rua Augusta, o Rossio e a Praça da Figueira. Inúmeros transeuntes, incluindo estrangeiros, circulam por tais regiões, com segurança.
A Praça do Comércio é marcante por sua grandeza. Essa área abrigou o Palácio Real por 400 anos, a partir do momento em que esse foi transferido do Castelo de São Jorge, em 1511. O primeiro palácio acabou destruído pelo terremoto de 1755. Um substituto foi erguido em seu lugar e, desde 1910, tal área abriga escritórios do Poder Executivo português, como o Ministério da Justiça.
O Rossio é uma praça elegante que oferece cafés e pastelarias, com as típicas mesinhas ao longo das calçadas. Na parte norte, localiza-se o Teatro Nacional.
Abaixo, algumas considerações:
POVO
Os portugueses são geralmente claros, com cabelos escuros, e possuem estatura mediana, diferentemente dos altos e loiros europeus setentrionais. Há muitos africanos na cidade, especialmente aqueles provenientes de Angola e Moçambique. Inúmeros brasileiros podem ser encontrados exercendo variadas funções, muito embora os trabalhadores assalariados predominam.
A média de idade é elevada, isto é, há muitos idosos em Lisboa, assim como em outras cidades da Europa Ocidental, não obstante jovens com seus brincos, piercings e jeans circulam à vontade pela capital portuguesa.
Os portugueses são extremados: ora são atenciosos e prestativos com o estrangeiro, com bom trato ao conceder informações, ora são ríspidos e mal-educados. Assim, não generalize o povo português (ou qualquer nacionalidade) tendo como base e pressuposto o primeiro cidadão com o qual tiver contato.
TRANSPORTE
A cidade dispõe de uma variada gama de transportes públicos. O metrô, contendo modernas instalações, possui uma rede satisfatória, muito embora não atinja o aeroporto internacional. Há bondes, ''auto-carros'' (ônibus) e o ''comboio'' (ônibus que liga Lisboa a cidades da região metropolitana).
Carros? As marcas francesas e alemãs predominam, assim como em boa parte da Europa. Há muitos carros orientais e, diga-se de passagem, Honda Fit aqui é Honda Jazz. Muitas novas versões aqui já foram lançadas, como a do Renault Clio, Renault Scénic e VW Golf.
ENERGIA E ÁGUA
As casas e apartamentos dispõem de sistema a gás, por meio do qual a água é aquecida para uso durante o inverno. Não há filtros, e confesso que ainda não tive coragem de abrir a torneira da cozinha ou do banheiro e encher um copo para beber. Aqui, paga-se apenas pelo uso/consumo de luz e água e os preços são baixos, a propósito.
ALIMENTAÇÃO
Uma ida ao supermercado ''Jumbo'', para abastecer a minha cozinha, fez-se necessária. Digo que não é fácil examinar as prateleiras e ter pouco conhecimento sobre as marcas de produtos ofertados. Frutas tropicais, pães de todos os tipos, carnes, peixes, laticínios, enfim, parecia estar no Carrefour do BH Shopping. Dificuldades com alimentação certamente não terei. E uma grande surpresa na seção de biscoitos - bolachas Nestlé importadas do Brasil, incluindo... Passa-Tempo!!! Ok. Agora só falta encontrar Guaraná Antártica para eu dormir sossegado.
Escrito por André Oliveira às 01h43
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Pela janela do Airbus, presenciei o nascer do sol no hemisfério norte. Pouco tempo depois, a tripulação informou-nos sobre o início do procedimento de aterrissagem. Por volta das 10 horas da manhã do domingo, dia 4, cheguei em Lisboa. Uma forte névoa encobria a cidade e pensei, ironicamente, se estava em Lisboa ou em Londres. Após sair da aeronave, o típico vento gélido europeu atingiu meu rosto e, finalmente, dei-me conta que realmente estava na... Europa! Um pequeno ônibus levou os passageiros para a área de desembarque internacional. Passei, tranquilamente, pela alfândega, diferentemente de minha viagem aos EUA, em 2001, e, logo em seguida, após longa espera, recolhi minhas 2 grandes malas que, graças a Deus, não foram parar na Islândia ou na Letônia. Aliás, diga-se de passagem, não foi nada fácil transitar com 2 carrinhos de bagagem, cada qual com uma de minhas 2 malas. Obviamente, nem em Lisboa e, muito menos, em São Paulo não houve uma viva alma que se dispôs a me ajudar. Mas tudo bem... Restava-me procurar um táxi que me levasse até minha nova "morada".
Cheguei à rua Afonso Lopes Vieira, 46, bairro do Campo Grande. D.Maria José, senhora que me aluga o apto., me esperava à janela. Confesso que foi uma verdadeira cesariana a subida de toda minha bagagem até o 2o andar do meu novo prédio. Após levar toda a "tralha", ainda "bufando" de cansaço, D.Maria apresentou-me, atenciosamente, todo o apartamento. Os móveis antigos e as várias fotografias de família dão um ar de "casa da vovó", ou algo do gênero. Muito aconchegante o meu novo lar, confesso. Marinheiro de primeira viagem, não faltaram alguns imprevistos, a começar pelas diferenças do português luso em relação ao português brasileiro. Mas consegui entender todo o "flat tour". Claro, sair de casa não é sempre fácil. Não há chuveiro no meu novo apartamento e, me disseram, que em toda a Europa o sistema é o mesmo: banheira com chuveirinho. "Se quiseres molhar a cabeça, suspendas o chuveirinho, ora pá!". Isso me pareceu, à primeira vista, algo mais complicado que azeitona em boca de banguela, mas com o tempo fui-me acostumando com o "banho europeu". Aliás, diga-se de passagem, água quente aqui depende de aquecedor a gás. O apto. de D. Maria José fica no bairro do Campo Grande, "zona", ou seja, bairro (não moro em zona, ora pois!) de classe média da cidade. Algo interessante é que os prédios antigos não possuem garagem e os carros de seus moradores ficam estacionados encima do passeio de pedestres. Na proximidade de minha nova residência, há um comércio significante: uma pequena farmácia, uma pequena loja de materiais elétricos, um café, agência de viagens e até um banco Santander. A Avenida do Brasil, obviamente, mais segura que a homônima carioca, fica próxima, assim como a tradicional "Avenida de Roma".
Acredito eu que não há pior dia para se chegar numa cidade européia, ainda mais quando se está de mudança, do que o domingo. Quase tudo fechado. Saí, à noite, para procurar uma "lan house". Como encontrar uma, em funcionamento, no pleno domingo? Um outro parto, ou melhor, uma nova cesariana. Inicialmente, peguei o metrô na estação "Alvalade", próxima ao meu apartamento. Foi o meu primeiro contato com o transporte público português. Entrei na estação, logo em busca de um gichê para compra de bilhetes. Não encontrei. Percebi-me que estou no Primeiro Mundo e dirigi-me à uma máquina eletrônica. Depositei uma nota de 10 euros, mas a máquina não a aceitou. Tive, então, que trocar minha nota, por duas de 5 euros, por exemplo. Fiquei constrangido de solicitar a algum transeunte, e, então, voltei à rua e procurei alguma loja ou mercearia. Tudo fechado. Avistei o "Consulado americano" e fui até ele, trocar meu dinheiro. "Consulado americano?", indaga o leitor. Mc Donald’s, vou ser mais preciso. Lá consegui trocar minha nota e, finalmente, pude adquirir meu bilhete, assim como se compra uma latinha de Coca-Cola na máquina de guloseimas de um shopping brasileiro. Desembarquei na estação "Roma", próxima ao centro histórico de Lisboa. Minha busca por uma "lan house" continuava. Busquei informações nas pequenas pastelarias e lanchonetes abertas. Ora, digo que, em Lisboa, se quiseres achar algum lugar, vale o brocado "quem tem pernas vá a Roma". Não adianta bocas para requerer informações. Os portugueses são péssimos para dizer algo da cidade onde eles próprios vivem. "Não sei, não conheço nada por aqui". Sim, isso foi a resposta com a qual fui "agraciado" após perguntar para uma sra. sobre algum local onde eu pudesse acessar a internet. Deu vontade de responder, "Ora, se não conhece nada por aqui, imagine eu!". Finalmente, em uma pastelaria, um educado jovem funcionário me informou que uma lan house havia em um shopping próximo. Iniciei minha jornada noturna até o centro comercial Amoreira. Claro, estou na Europa, mas andar à noite nunca é recomendável. Enfim... Cheguei até o shopping. Aliás, o mundo sempre acaba em shoppings, além de pizzas, claro, se bem que sempre há uma pizzaria dentro de um. Lojas imponentes encontrei, como Hugo Boss, Lacoste e... O Boticário! Meus Deus, Boticário em Lisboa... Claro, onde há brasileiros, há lojas de brasileiros.
Há um detalhe a ser mencionado. As escadas rolantes portuguesas são em mão-inglesa. Isso é muito importante para turistas brasileiros que desejavam visitar o país. Sobe-se pela esquerda, desce-se pela direita. Claro, na primeira vez, quase levei um "trupicão", mas hoje já me acostumei com o sistema.
Escrito por André Oliveira às 01h43
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Lisboa, segunda-feira, 5 de Fevereiro de 2007
Caros Amigos,
Escrevo da capital portuguesa, a mundialmente conhecida Lisboa, cidade que me abrigará durante os próximos 6 meses. Como deve ser do conhecimento de todos, sou bolsista na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. A mobilidade estudantil faz-se através do programa SÓCRATES/ERASMUS da União Européia (UE), que tem o objetivo de fomentar a qualidade e reforçar a dimensão européia no ensino superior, incentivando a cooperação transnacional entre universidades. Aqui cursarei algumas matérias, dentre elas Direito Ambiental, Filosofia do Direito, Direitos Fundamentais, Direito Internacional Privado e Relações Internacionais.
Parti de Belo Horizonte no sábado, dia 3, pela manhã, rumo a Guarulhos (SP). Considerando os recorrentes problemas do controle de tráfego aéreo brasileiro, preferi embarcar para a capital paulista com algumas horas de antecedência em relação à saída de meu vôo com destino a Portugal. Como preciso fazer economias, já que minha calculadora, ultimamente, apenas faz multiplicações na casa dos 2.80, decidi comprar um bilhete da GOL, companhia que me oferecia, no sábado, dia 3, duas opções, promocionais, de passagens – 8h50min e 19h. O meu vôo para Lisboa, pela TAP, estava marcado para as 22h. Seria demasiadamente arriscado chegar em São Paulo às 20h. Resultado: saí de Belo Horizonte às 8h50min, com destino a Guarulhos e 12 horas de espera seguir-se-iam até o embarque no moderníssimo Airbus da companhia aérea portuguesa.
Inesperadamente, na sala de embarque de Confins, encontrei-me com Clarissa, aluna do 8o período do curso de Direito da UFMG. Ela seria minha companheira nas longas horas de espera em Guarulhos, muito embora o bate-papo entre nós ajudou a amenizar a impaciência.
O vôo 194 da TAP tinha saída marcada para as 22h. Entretanto, a decolagem somente ocorreu por volta das 22h40min. O atraso ocorreu porque um passageiro foi, forçadamente, retirado da aeronave por "portar dispositivos perigosos em sua bagagem de porão". Resultado: longos 30 minutos, em terra, dentro de um avião lotado, até que a mala do infeliz foi achada no compartimento de bagagens. Um "pequeno pormenor" (expressão que, estranhamente, dá nome a uma loja aqui em Lisboa): o ar condicionado esteve desligado durante todo esse tempo, não faltando reclamações dos passageiros brazucas aos queridos e simpáticos tripulantes portugueses.
A viagem foi calma. A aeronave cortou parte de minha nação, atravessando Minas Gerais e o interior nordestino, e, finalmente, adentrou-se na imensidão do Atlântico Norte. Era noite, e, portanto, não pude avistar nada dos 12 quilômetros acima do solo. Monitores de vídeo individuais em cada poltrona permitiram acompanhar a rota do avião. Alguns filmes jurássicos (algo típico de companhias aéreas) passaram, mas nenhum segurou minha atenção. As horas se passaram e o sono, por conseguinte, chegou. Como dormir num esdrúxulo espaço de 3a classe? Fui me ajeitando e conseguir tirar uma soneca. Acordei no meio da madrugada e ainda faltavam cerca de 2 horas e meia de vôo. Decidi ficar acordado e aguardar a chegada. A partir de então, a aeronave passou rente à costa africana, bem como acima de diversas ilhas atlânticas, desconhecidas por mim, até então.
Escrito por André às 23h35
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