Praga, sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007
Caros Amigos,
Uma boa noite de sono é sempre essencial para um viajante. Acordei por volta das 10h e fui experimentar o café-da-manhã ofertado e incluso na diária do albergue. Uma refeição básica: leite, cereais e pães. Após experimentar o pão de sal tcheco, acredito não ter mais motivos para reclamar das padarias do meu bairro, em Belo Horizonte.
Iniciei minha caminhada em direção à Praça da Cidade Velha, que, segundo alguns guias turísticos, é considerada um dos espaços públicos mais agradáveis de toda a Europa. A Staré Mesto, ou Cidade Velha, surgiu a partir do século 11, quando os povoamentos em torno do Castelo de Praga, localizado na outra margem do rio Vltava, foram se espalhando pela região. Infelizmente, dei-me conta que a pobreza e a exclusão social também são traços presentes na República Tcheca, país reintegrado às práticas capitalistas desde o final da década de 80. Observei alguns poucos pedintes ao longo das ruas. Marcou-me a posição em que estes se colocam para clamar por esmolas.
A praça é, de fato, pitoresca, assim como a cidade em geral. Livre do trânsito, é cercada por igrejas, palácios e pequenas casas. A beleza do local me surpreendeu.
A Prefeitura da Cidade Velha, um dos edifícios localizados na praça, é um notável símbolo de Praga. Criada em 1338, ampliou-se ao longo dos séculos, aglutinando diversas tendências arquitetônicas. A torre, um dos destaques da construção, é de 1364 e, de seu topo, tive uma bela vista da cidade, especialmente dos seus inúmeros pontos turísticos. Os brasões nela afixados são muito interessantes, apesar de ofuscados pela grandeza da obra.
No entanto, a grande atração da velha prefeitura é, sem dúvida, o seu relógio astronômico. Construído em 1490, embora aperfeiçoado entre 1552 e 1572, o relógio marca o tempo de acordo com três calendários – o da antiga Boêmia, o babilônico e o romano. Como não sou “expert” em história da relojoaria, já que, para mim, estudar as horas é, literalmente, perda de tempo, não consegui compreender o mecanismo como um todo. Claro, consegui visualizar as horas de acordo com o sistema atual, mas o relógio “3 em 1” tornou-se um verdadeiro “decifra-me ou te devoro”. Após admirar o engenho de Jan Táborsky, desviei minha atenção para o calendário, localizado logo abaixo, cujo mostrador foi concebido em 1866. Os 365 dias do ano – por favor, não venham me perguntar sobre os anos bissextos – figuram no imenso disco e uma pequena seta dourada aponta para o dia em questão. Um magnífico calendário, sem dúvida muito mais interessante do que as “folhinhas de papel”.
De hora em hora – além dos resultados parciais da Tele-Sena –, figuras articuladas mecanicamente aparecem acima do relógio da Prefeitura da Cidade Velha, atraindo uma grande multidão de turistas. O espetáculo é interessante, apesar de durar alguns poucos segundos, mas uma comparação inarredável com o presépio do Pipiripau, do Horto Florestal da UFMG, veio em mente e apercebi que este é, de fato, muito mais atraente.
Belas praças sempre são perfeitos cenários para belas fotos. Após ter concentrado a atenção na antiga prefeitura e seus atrativos, desviei as lentes de minhas câmeras para a gótica Igreja de Nossa Senhora Diante de Tyn (1365). Apesar de fechada, pude apreciá-la de fora. A Igreja de São Nicolau (1735), obra de Kilian Ignaz Dientzenhofer – o mesmo arquiteto do Palácio Kinsky, em estilo rococó do século 18, localizado no leste da praça –, afigurou-me mais interessante que a primeira. No lado sul da praça, situam-se inúmeras pequenas casas com seus respectivos símbolos identificadores, dentre elas a Casa do Carneiro de Pedra. No centro, ergue-se o monumento a Jan Hus, líder da reforma protestante no país, condenado, por práticas hereges, em 1415.
Caminhar pelas ruelas de Praga, especialmente aquelas destinadas a pedestres, é sempre uma experiência prazerosa e, portanto, inesquecível. A cidade possui metrô e bondes, mas acredito que um viajante somente ‘sente’ a cidade quando nela se incorpora e, para tanto, nada melhor que andar e desvendar lugares por ele até então desconhecidos.
Utilizando um bom e prático guia turístico, informei-me que, na Idade Média, a comunidade judaica de Praga vivia confinada num gueto, onde hoje se localiza o bairro judeu Josefov, também situado na Cidade Velha. Ao longo de muitos anos, a comunidade esteve submetida a leis opressoras e vexatórias. No século XVI, por exemplo, os judeus eram obrigados a usar um círculo amarelo identificador em suas roupas, o que relembra, indubitavelmente, as cenas da primeira metade do já não distante século XX. José II, governante no final do século XVIII, abrandou a discriminação e, desde então, o bairro recebeu o seu nome, numa singela homenagem. No final do século XIX, as autoridades municipais de Praga demoliram boa parte dos guetos existentes, mas muitas sinagogas e o velho cemitério foram preservados.
Avistei uma estátua dedicada a Franz Kafka, autor tcheco, e vi a mais antiga sinagoga do continente europeu, a Sinagoga Staronová (1270), que sobreviveu a incêndios e a massacres anti-semitas. Visitei o Velho Cemitério Judaico, fundado em 1478, local que, durante 300 anos, foi o único espaço onde os judeus da região podiam ser sepultados. Obviamente, devido à pequena área, enterravam-se os mortos em camadas (cerca de doze), uns encima dos outros. Hoje vêem-se 12 mil lápides correspondentes a cerca de 100 mil pessoas. Ao lado do cemitério, há um museu dedicado à memória dos judeus tchecos mortos durante a onda anti-semita que assolou o país no século passado.
Após ter passado a tarde visitando interessantes pontos turísticos, fiz um lanche e voltei ao albergue. À noite, saí com um grupo que se hospedava no mesmo local. Fomos a um “pub” em Praha 3, uma das várias regiões em que se divide a cidade.
Amanhã chegará de Ostrava, terceira maior cidade da República Tcheca, meu amigo Alesek. Encontraremo-nos na Praça Venceslau e visitaremos outras famosas atrações de Praga.





Outras fotos: http://andreoliveira.nafoto.net
Escrito por André Oliveira às 15h33
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Pronto. Agora sim estava com o endereço em mãos: Sokolská, 11, Nove Mesto (ou “Cidade Nova”). Dirigi-me ao albergue, ou “hostel”, claro, sempre com o memorável sotaque britânico. Percebi que ter um endereço e um mapa não é a mesma coisa de ter um queijo e uma faca na mão. Ainda tive que pedir informações aos transeuntes e, após uma caminhada pouco prazerosa, dado o frio – cerca de 5 graus positivos –, o gélido vento e a garoa, cheguei ao albergue da Hostelling International. Fechado, devido à baixa estação. Lição número 1: sempre utilize um telefone público para confirmar se o albergue pretendido está ou não em funcionamento. O atendente me indicou um outro “hostel”, perto dali, anotando, em meu mapa, o nome da rua – lição número 2: nunca tente guardar nomes de rua em tcheco, você certamente esquecerá dentro de 5 minutos, ou menos –, muito embora não tenha me dado o exato número do edifício. Continuei minha jornada. Procurei, procurei, procurei e não achei o maldito albergue. Já estava literalmente cansado e entrei no primeiro albergue visto, apostando todas as minhas fichas no que iria encontrar pela frente. Com sorte, fiquei num quarto que, apesar de triplo, não possuía nenhum hóspede. Não havia armários, ou “lockers”, onde pudesse deixar, com segurança, minha bagagem, mas a mantive fechada com o cadeado utilizado para despachá-la nos aeroportos. O casarão era antigo e os banheiros não eram muito agradáveis, apesar de limpos, mas pagar 15 euros para ter um teto, por uma noite, na Europa, não é para se queixar.
Após ter me alojado, iniciei uma “caminhada de reconhecimento” da capital tcheca, apenas nas proximidades do albergue. Este localiza-se a dois quarteirões do Museu Nacional, situado na célebre Praça Venceslau, palco da Revolução de Veludo (1989), que deflagrou o fim do comunismo na ex-Tchecoslováquia. A praça hoje contém inúmeras lojas, hotéis, restaurantes e “cabarets”, bem como a imponente estátua de São Venceslau (1912), padroeiro da Bôemia – uma das duas regiões em que se divide o país. Príncipe da dinastia dos Premíslidas, Venceslau fora morto no ano 935 pelo próprio irmão, dadas disputas pelo poder.
O Museu Nacional é fabuloso pela sua grandiosidade. Terminado em 1890, tornou-se símbolo de prestígio nacional, numa época em que a República Tcheca encontrava-se – até 1918 – sob o domínio dos Habsburgos austro-húngaros. Avistei, ainda, o colorido e vívido Hotel Europa (1906).
Passei o fim de tarde e parte da noite caminhando ao longo da extensa Praça Venceslau e experimentei um verdadeiro hot-dog daquela região: um pão de sal com uma gigante lingüiça. Inesperadamente, ouvi um grupo com um sotaque familiar. Cearenses em Praga, também viajantes. Conversamos enquanto comíamos e falamos das experiências vividas até então.
Após ter empanturrado com aquele gigante hot-dog, tomei o rumo do “hostel”, enquanto passava por diversos oferecedores de maconha ou algo do gênero, algo comum na cidade. Observei o quanto o povo tcheco é, digo, nojento. Eles gospem na rua sem qualquer cerimônia e desafio quem, eventualmente, visitar Praga: se não achar um guspe a cada dez passos que der, certamente você não está na cidade. Ademais, outros dois fatos me chamaram a atenção: primeiramente, vende-se absinto em lanchonetes tal como refrigerantes ou água mineral. Segundo, ao passar pela estação de metrô Mustek, a fim de cortar caminho rumo ao meu albergue, presenciei, surpreendentemente, um grupo de jovens se drogando com completa liberdade. E nada de maconha, meus caros, mas sim drogas injetáveis. Acredito que, além de um pavoroso fato, há um verdadeiro contexto social envolvido, fazendo daquela cena algo indubitavelmente marcante.
Cheguei ao albergue e, lembrando-me da necessidade de comprar uma pasta de dente, saí em busca de uma farmácia ou drogaria. Perguntei a um grupo de senhoras que esperava pelo bonde sobre a existência de uma “drugstore” na região. Elas, creio eu, olharam-me com certo repúdio e ainda restam-me dúvidas se pensaram ou não em uma loja (“store”) de drogas (“drugs”), no sentido literal da expressão. Finalmente, encontrei uma farmácia, muito embora estivesse fechada. Decidi retornar ao albergue e comprar o produto no dia seguinte. Na volta, avistei um pequeno garoto que se divertia com sua inseparável bola de futebol. Aproximei-me e disse ser do Brasil. Ele não me entendeu e, tentando explicar-lhe, fiz alguns movimentos com os pés, simulando algumas embaixadas e chutes, os quais, obviamente, expressam a maior paixão brasileira. O pequeno garoto permaneceu confuso e foi então que tirei de minha carteira uma figurinha com a foto da seleção verde-amarela. Ele pegou para si e continuou a caminhar, pensando ser um presente. Claro, não o era, e pedi, educadamente, de volta.
Continuei a caminhar em direção ao albergue e cá estou a escrever tal memorando. Nesta sexta-feira, conhecerei mais desta incrível e misteriosa cidade que vem me proporcionando experiências certamente inesquecíveis.

Outras fotos: http://andreoliveira.nafoto.net
Escrito por André Oliveira às 15h33
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Praga, quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007
Caros Amigos,
Escrevo da magnífica, histórica e pitoresca Praga. Parti de Genebra pela manhã, num vôo direto para a capital da República Tcheca. Desembarquei no aeroporto internacional, peguei minha bagagem e dirigi-me ao saguão principal do terminal de passageiros, de modo a trocar Euros por Coroas tchecas, buscar informações acerca das alternativas de meios de transporte que me levassem até o albergue almejado e, finalmente, ligar para a casa, a fim de dizer que minha viagem ocorria dentro dos conformes. O inverno europeu, certamente em razão das previsíveis, mas insolucionáveis mudanças climáticas, está muito mais ameno no corrente ano e, incrivelmente, tenho em Praga, cidade localizada na Europa Central, a mesma sensação térmica que tive em Lisboa, antes de partir. Nada de nevasca, mas sim temperaturas na casa dos 5 graus celsius positivos.
As primeiras experiências são verdadeiras lições para as subseqüentes. Sou marinheiro, digo, mochileiro de primeira viagem e realizo tal jornada completamente sozinho, muito embora aqui, na República Tcheca, encontrarei com meu amigo Alesek e há sempre pessoas a serem conhecidas nos albergues nos quais me hospedarei. Nunca carreguei nas costas uma mochila de grandes dimensões e, por mais que essa tenha grande tecnologia de redução de esforço e impactos, saber usá-la é essencial, especialmente saber regular suas alças e tiras. Creio, dada minha pouca experiência no assunto, ter atado demasiadamente as alças junto ao peito e, consequentemente, ao longo do dia, uma forte dormência no braço esquerdo me acompanhou. No entanto, nada veio a atrapalhar o início de minha viagem em Praga.
Fazendo referência à minha desatenção, perdi meu sweater na aeronave e entrei em contato, ainda no aeroporto, com o serviço de informações ao passageiro. Disseram-me, num primeiro momento, que nenhum objeto perdido foi detectado. Uma atenciosa senhora deu-me o seu telefone de tal maneira, no dia seguinte, a voltar a acionar o serviço e requerer informações sobre o paradeiro de minha roupa. Ora, imaginei que esta ainda estava no Airbus que me trouxera para a capital tcheca e, devido ao fato de aviões de companhias aéreas de baixo custo estarem mais no ar do que em terra, permitindo tarifas tão acessíveis aos usuários, já imaginava meu sweater trafegando pelo espaço aéreo de um país qualquer da União Européia. Às vezes admiro minha esperteza e, para ser sincero, confesso ter perdido, mais tarde, o número do telefone para o qual uma simples ligação poderia recuperar minha estimada roupa. Estava em Praga e não iria perder tempo – “keep going”.
Saí do aeroporto em busca do ônibus que me levasse até a estação de metrô mais próxima. O primeiro desafio foi comprar uma passagem através da incompreensível e indecifrável máquina de venda eletrônica. Para complicar minha vida, a máquina somente aceitava moedas e eu só portava notas de “Coroas tchecas” – já dizia o célebre refrão “panela véia é que faz comida boa!”. Pedi ajuda a uma jovem que aguardava pelo transporte, e, a partir de então, fiquei impressionado com a atenção do povo local, ou parte dele, ao turista estrangeiro. Expliquei, em inglês, toda a situação e ela se dispôs a resolver o meu problema. Enquanto tentava adquirir, para mim, uma passagem, o ônibus chegou ao ponto. A máquina sequer cooperou e a situação permaneceu indefinida. Decidimos entrar no veículo e comprar o meu bilhete, diretamente, através do motorista. Dirigi-me até a parte frontal e entreguei uma nota ao condutor. Aquele fez uma espécie de sinal negativo. Mais tarde, percebi que não havia troco para a relativamente grande nota que entregara. Acabei indo do aeroporto à estação de metrô sem ticket, sem pagar. 0800. Nada mau. Cito, ainda, uma afável passageira, senhora na casa de seus 70 anos, que me cedeu o seu bilhete de metrô, válido por mais duas horas, sem utilidade para ela. Não recusei a oferta e agradeci, um pouco sem jeito, enquanto continuava observando a compleição física dos habitantes de Praga.
Desembarquei na estação Mustek, na Praça Venceslau. Um grupo de estudantes olhou-me admirado, claro, nada entendi o que comentaram a meu respeito, mas percebi que exclamaram um “Nossa!”, ou algo do gênero, já que, certamente, observaram a bandeira brasileira amarrada junto à mochila.
Tinha, em mãos, um mapa da cidade, mas não o exato endereço do albergue pesquisado na internet. Eita! Precisava encontrar uma lan house, enfim, ter acesso a um computador para tomar nota do exato local. Entrei numa livraria onde talvez, por um milagre, soubessem me informar o paradeiro do albergue que, já sabia, não estava longe dali. A atendente pouco falava inglês. Um senhor aproximou-se e ofereceu-me ajuda. Era britânico, o sotaque não negava. Indaguei quanto à existência de um “hostel” nas redondezas. Ele não entendeu e, então, repeti: “hostel”. Com muita dificuldade – ou seria falta de esforço? – ele percebeu e corrigiu minha pronúncia, considerando o meu inglês eminentemente americano. Por um momento, pensei: “estou aqui com uma mochila enorme, sem saber ainda onde ficar, com fome e este senhor vem me dar lições de como falar o legítimo e tradicional inglês britânico?”. Por fim, nada resolvido. Continuei andando pela rua Vodickova e avistei um McDonald’s. Fome. Entrar num “fast-food” americano em plena República Tcheca parece piada, mas quando se tem fome e certeza de que ali há algo conhecido para comer facilita bem as coisas. O homem sempre está em busca de segurança. Chegar num país estranho, com pessoas falando uma língua incompreensível, não é fácil, ainda mais quando, na minha situação, ainda estava ligeiramente cansado da viagem, bem como desconhecia o local onde iria passar a noite. Claro, nesses aspectos, não arriscaria, de imediato, a entrar num restaurante que ofertasse comidas locais.
Quando disse que o povo local é hospitaleiro, faço, agora, uma nova referência comprovativa de tal constatação. Após ter pedido um McRoyal, vi que, na mesa ao lado, um jovem portava um laptop com acesso à internet sem-fio. Aproximei-me, perguntei se o mesmo falava inglês e solicitei, sem qualquer cerimônia, o uso de seu computador para consultar um endereço. Positivo. Olha, realmente admiro a minha cara-de-pau – mas que nada, não tinha nada a perder! Como me disseram antes de embarcar para a Europa, eu, aqui, sou um completamente desconhecido. Ninguém sabe o meu nome, ninguém sabe de minha história e, portanto, posso dizer que me chamo João ou Manuel, para não fugir dos típicos nomes portugueses.
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Escrito por André Oliveira às 15h31
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Genebra, quarta-feira, 7 de Fevereiro de 2007
Caros Amigos,
Hoje, quarta-feira, dia 7 do mês de Fevereiro, inicio minha viagem pela Europa Central, antes do começo de minhas aulas na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que ocorrerá no dia 26 daquele mês.
Confesso que nada dormi na véspera do início de meu “mochilão”, não em razão de eventual ansiedade ou coisa do gênero, longe disso, mas sim pelo medo de dormir mais do que a cama e, consequentemente, perder meu vôo com destino a Genebra, com partida marcada para as 8h20min da manhã de quarta-feira. Passei a madrugada ajeitando meus equipamentos fotográficos e arrumando a minha grande mochila de 75 litros. Não economizei nas roupas de frio, aliás, havia grande expectativa quanto ao tempo na Europa Central – frio? Neve? A falta de internet em minha nova casa, em Lisboa, e a impossibilidade de assistir ao “Weather Forecast” da CNN levaram a uma grande incerteza quanto às condições meteorológicas nas cidades a visitar. Ora, frio é o de menos, é só bem se agasalhar. O que interessa e o que importa é um fenômeno chamado chuva. Sim, esta estraga qualquer viagem.
Saí de casa com destino ao aeroporto de Lisboa. Peguei o “carris”, ou ônibus, e, em poucos minutos, cheguei ao terminal. Muitas pessoas olhavam, com atenção, minha grande mochila. Parecia eu uma tartaruga com um casco gigante. Claro, passaria 18 dias viajando e roupa de frio ocupa – e como ocupa! – muito volume. Certamente, “mochilar” no verão é bem mais tranqüilo. Mas o que mais chamava a atenção era um pequeno detalhe: a bandeira do Brasil amarrada junto à bagagem. No dia anterior, as seleções de futebol do Brasil e de Portugal participaram de um amistoso na Inglaterra (mas, ó céus, por que na terra de Vossa Majestade?) e os portugueses venceram. Hum... Atrevido demais um brasileiro com a bandeira de seu país em Lisboa.
Praga, capital da República Tcheca, seria o ponto de partida de minha viagem. Como não há vôos diretos de Lisboa a Praga pela companhia aérea de baixo-custo EasyJet, peguei um avião com destino a Genebra. Fiquei na cidade suíça durante 1 dia e, na quinta-feira, dia 8, parti rumo a Praga. Aliás, diga-se de passagem, a supracitada companhia é ótima – aviões novos, pontualidade e tripulação atenciosa são marcantes. Claro, serviço de bordo não há, já que é uma viação aérea “low fare”, mas os preços baixos compensam o esforço dos mais “gulosos”.
Genebra, Suíça, mundialmente conhecida cidade às margens do Lago Léman. Após XX horas de vôo, a aeronave aterrisou no aeroporto local. Chuva, infelizmente. A garoa e o frio impossibilitariam que eu bem conhecesse Genebra. Após ter passado, tranquilamente, pela alfândega – a primeira das 10 vezes que calculei, ao longo de toda minha viagem (a minha coleção de carimbos das imigrações estava só começando...) – peguei minha bagagem, troquei parte de meus “traveller cheques” por francos suíços e dirigi-me até um posto de informação turística, em busca de um albergue na cidade. Olhem, viajarei durante 18 dias sem ter reservado 1 cama sequer. Claro, aqui é inverno, baixa estação, mas há sempre um pingo de risco, inafastável, mas que eu ignoro. Na próxima, prometo que não farei o mesmo. Peguei um confortável trem que me levou até a estação Gare Cornavin. Daqui, a apenas alguns quarteirões, situa-se um dos albergues da Hostelling International, organização internacionalmente reconhecida e creditada. Para lá fui caminhando e admirei-me com o desenvolvimento da cidade suíça. Os belos e antigos edifícios ao longo da Rue de Lausanne, os modernos bondes, elétricos e não-poluidores, assim como os bem vestidos transeuntes e o desfile de carros importados não propiciaram qualquer dúvida: a Suíça é um país de primeiro mundo e Genebra, cujo idioma predominante é o francês, goza de um notável desenvolvimento socioeconômico.
Cheguei ao albergue, fiz o meu check-in e fui até o meu dormitório, que consiste em 3 beliches, ou seja, 6 camas. Divido o quarto com um chinês e um americano e, mais do que nunca, observando a quantidade de chineses neste albergue, dei-me conta que a China já está dominando o mundo. Salve-se quem puder! Para não deixar ninguém no Brasil preocupado, fiz minhas ligações internacionais de rotina e sempre prendia a respiração na hora de o telefone devolver as moedas. Há telefones públicos na Europa que funcionam à base de moedas comuns. É simples: você deposita os seus euros no compartimento apropriado, faz a sua ligação e, ao final, se sobrar “créditos”, o telefone “gospe” o dinheiro que sobrar. Claro, há sempre casos horrendos de o telefone cismar ficar com sua prata de 1 euro e aí, meus caros amigos, só resta chorar – porque chamar o fabuloso Graham Bell de todos os nomes possíveis não adianta.
Após ter almoçado, decidi subir a colina que me levaria até a Cidade Velha. Portava um mapa da cidade, mas informações dos habitantes locais sempre é necessária. Um simpático jovem casal, no ponto do bonde, deu-me dicas de como chegar ao local pretendido. Desembarquei no local indicado, mas o frio e a chuva estavam contra mim. O vento gelado cortava e queimava meu rosto – foi então que percebi o porquê das bochechas vermelhas dos europeus, no inverno – e temi não ter mais minhas úteis mãos. Estava bem agasalhado, claro, mas há partes do corpo que acabam por ficar desprotegidas. Acabei por desistir de minha jornada e voltei para a Rue de Lausanne, por onde perambulei ao longo do resto do dia. “Vitrinei”, na verdade, verdadeiro programa de índio na Europa. Passei por lojas, inclusive por uma concessionária da Ferrari – se aceitassem cheque do Banco do Brasil / Conta Universitária, até que levaria uma vermelha que estava no fundo da loja –, e, no final da noite, comi uma panqueca e matei minha fome.
Claro, Genebra ainda está para ser verdadeiramente conhecida e descoberta, mas é tão somente uma questão de tempo. Aliás, aqui estou por não haver vôos diretos de Lisboa a Praga, pela companhia aérea escolhida. Agora é preparar para desembarcar na capital da República Tcheca, cuja história e beleza certamente propiciarão um verdadeiro início de uma incrível viagem.
Escrito por André Oliveira às 15h42
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BRASIL, Sudeste, BELO HORIZONTE, CORACAO EUCARISTICO, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Cinema e vídeo, Viagens MSN - andreoliveira86@hotmail.com
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