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Um pequeno bonde ajudou-nos a descer as íngremes colinas de Mala Strana e, em seguida, caminhamos em direção à célebre Ponte Carlos. Passamos por estreitas vielas, que, num passado pouco remoto, disse-me Alesek, foram submersas pela enchente do rio Vltava, tal como demonstram as marcas d’água nas paredes dos palacetes e pequenas casas. Consulados e embaixadas de inúmeros países estão localizados na região – mas não a do Brasil.
Carlos IV, imperador do vasto Sacro Império Romano-Germânico, no século XIV, é uma figura amada e respeitada pelos tchecos. A Karluv Most, tradicional ponte da cidade – que liga Stare Mesto a Malá Strana –, não leva o seu nome em vão. Praga tornou-se sede da residência imperial durante o seu reinado, propiciando o início de uma era de desenvolvimento para a cidade. Inaugurada em 1357, pelo próprio imperador Carlos, a Karluv Most foi incrementada ao longo dos anos, tendo recebido inúmeras estátuas barrocas – certamente menos impactantes e notáveis que as de Aleijadinho, em Congonhas/MG. Hoje, a ponte é exclusiva para pedestres e inúmeros turistas por ela circulam. Dela, pude admirar uma bela vista do rio Vltava, assim como do Teatro Nacional, da Catedral de São Vito e do Castelo de Praga, ao som de belas melodias tocadas por sanfoneiros que nela se estendem.
Após admirarmos a beleza da Ponte Carlos, eu, Alesek e Dennis entramos numa interessante loja de presentes. Um vendedor veio nos atender e, dando-se conta de minha nacionalidade, começou a conversar e apresentar os produtos falando um fluente português. Indaguei a respeito de sua naturalidade, desconfiando que era, assim como eu, brasileiro. No entanto, disse-me ser búlgaro. Hesitei-me, desconfiando que tudo não passava de uma brincadeira, enquanto me divertia experimentando um dos típicos chapéus de pele russos. Por um momento pensei comprá-lo, mas ao pensar que jamais o usaria no Brasil, a não ser em eventuais festas a fantasia, contentei-me com um broche a ele preso, para mim vendido, representativo do símbolo da ex-União Soviética.
Logo em seguida, rumamos em direção à Praça da Cidade Velha, cujas atrações turísticas visitara ontem. Incrivelmente, esta é a segunda viagem de Alesek a Praga, mas ao pensar, com meus botões, que estivera em São Paulo também em duas ocasiões, minha surpresa caiu por terra. Alesek, assim como eu, era um descobridor dos mistérios e belos cenários da capital de seu país. Tomamos um “capuccino” no Sagaffredo e, no cair da noite, pegamos o bonde em direção ao apartamento em que estamos hospedados. Não muito longe dali, há um “shopping center” e concordamos em assistir a um filme qualquer. Compramos as entradas, muito embora a sessão começasse em pouco mais de uma hora. Em tal intervalo de tempo, jantamos num restaurante sito nas redondezas. Experimentei mais um típico prato da República Tcheca: carne de porco frita coberta com queijo, acompanhada com fritas, tomate, pepino e cebola. Uma saborosa refeição, certamente mais gostosa que o almoço de hoje. Provei, ainda, o chopp tcheco e, como não tenho experiência na “arte de encher a cara”, pouca diferença senti em relação à bebida brasileira.
Deixamos o restaurante rumo ao cinema. Por um momento, pensei comigo mesmo se o filme era dublado ou legendado. Considerando a primeira hipótese, já cogitava de um cochilo de uma hora e meia – hum, se fosse o Titanic dublado em tcheco, três horas de sono cairiam muito bem após uma longa caminhada pela cidade e um jantar. O filme, no entanto, era em inglês e legendado em tcheco. Entramos no cinema, passamos pela bilheteria e perguntei alguma coisa qualquer, em português, a um funcionário. Claro, me diverti muito com a expressão de “não estou entendendo nada!” e meus amigos tchecos riram ao compreenderem a brincadeira. Na sala, procurei a melhor posição, para não perder uma linha sequer da legenda. E olha lá quem colocasse o cabeção na minha frente, hein! Pela primeira vez em toda minha vida, tive o prazer (?) de assistir a um filme, por completo, em inglês e sem utilizar legendas ou dublagem. Viva a América!
Terminada a sessão, cogitei pagar o estacionamento do shopping, pegar o meu carro e ir para casa. Dei-me conta, no entanto, achando graça, que estou no longínquo Leste Europeu. Saímos do cinema e caminhamos em direção ao apartamento no qual estamos hospedados. O magnífico Castelo de Praga nos aguarda para, neste sábado, ser desvendado e descoberto.


Outras fotos: http://andreoliveira.nafoto.net
Escrito por André Oliveira às 15h53
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Praga, sábado, 10 de Fevereiro de 2007
Caros Amigos,
Após alguns dias sem qualquer contato pessoal com conhecidos, hoje, sábado, chegou de Ostrava meu amigo Alesek. Nos conhecemos na internet, na verdade. Muito antes de embarcar para a Europa, sempre tive o interesse de conhecer estrangeiros, de modo a pôr em prática meu inglês, ter um íntimo contato com diferentes culturas e, dada a eventualidade de realizar uma viagem para o exterior – hoje em curso –, poder encontrá-los pessoalmente. Ora, meus caros amigos, uma coisa é ir até uma agência de viagens e adquirir um pacote turístico que, dada uma imbecil comodidade, possibilita a qualquer pessoa viajar cercada de brasileiros e amplamente alienada por guias também verde-amarelos. Isso está ao alcance de muitos. Sempre tracei como meta a realização de uma viagem que fugisse de tal convencionalismo. Corri atrás de meu visto estudantil para entrar, legalmente, em território português, tracei meu roteiro de viagem, comprei minhas passagens áreas e terrestres e tratei de fazer ou tentar fazer contatos com pessoas locais em cada país que visitasse. Foi assim com Alesek e será assim com Ana, dentro de alguns dias, na Eslovênia.
Fiz o meu “check-out” no albergue no qual estava hospedado, já que, nesta noite, dormirei no apartamento de um conhecido de Alesek, localizado na outra margem do rio Vltava. Nada mau, pois uma diária a menos diminui as despesas. Tomei o meu café e fui caminhando, portado de toda minha bagagem, em direção à estação Mustek, situada na não distante Praça Venceslau, onde, às 10h da manhã, eu e Alesek marcamos de encontrar. Considerando que a estação possui 4 saídas para a praça, não foi nada fácil achá-lo. Algumas ligações aqui, ali e outras acolá – utilizando os geralmente sucateados telefones públicos – facilitaram tudo e, finalmente, nos conhecemos, bem como Dennis, amigo de Alesek. Ambos são jogadores de “ice hockey”, uma das paixões nacionais dos tchecos.
Dirigimo-nos ao apartamento no qual estamos hospedados. Pegamos o metrô e constatei que o sistema de transporte público tcheco, diferentemente do brasileiro e do português, é ausente de qualquer fiscalização intensiva quanto à compra de bilhetes. Não há roletas, não há “catracas”, muito embora – e avisos alertam para tanto – guardas municipais podem requerer dos utilizadores do serviço a exibição dos passes ou tickets, disponíveis para compra nas ruas e estações de metrô, ônibus ou bondes. Uma verdadeira lição de desenvolvimento humano.
Desembarcamos na estação Andel (anjo) e caminhamos rumo à residência, enquanto eu observava a popularidade dos automóveis Skoda, marca nacional. Alesek havia recebido as chaves de seu amigo, apesar de nunca ter ido ao local. De fato, eu, ele e Dennis nos surpreendemos ao chegar no apartamento, consistente num quarto-cozinha-banheiro, dada a sua patente desorganização. Aqui não há camas, tão-somente colchões infláveis e bóias de piscina. Para quem cogitava dormir em estações de trem ou em aeroportos, para economizar nas despesas, já que é regra universal de todo mochilão – jamais dos “genéricos” – viajar muito gastando pouco, não reclamei, pelo contrário, achei tudo ótimo, inclusive pelo fato de tudo estar fora de meus padrões. Há bóias, só falta a piscina e a sunga – e, claro, o memorável calor dos trópicos.
Após acomodar nossas bagagens, saímos para almoçar num “pub” situado a alguns quarteirões dali. Estando o restaurante localizado fora da região turística da cidade, cardápio em inglês não existia e me senti como um verdadeiro “cego perdido em tiroteio”. Pedi aos meus amigos que escolhessem um prato para mim, embora, claro, tipicamente tcheco, acompanhado da tradicional Coca-Cola que, feita no Leste Europeu, acabava por ter um gostinho especial. Enquanto aguardávamos pela refeição, ao som da “pop music” americana, conversamos e presenteei os meus anfitriões com algumas moedas de Real, tiradas de minha carteira. Demonstrei o quanto nossa moeda é desvalorizada em relação ao Euro, pegando 2,80 reais e colocando sobre a mesa. A partir de hoje, iniciei minha coleção de aparadores de copos – aqui, enormes canecas, por ora jarras – de cerveja, cada qual representativa de uma das famosas marcas locais. Após alguns minutos, a nós foram entregues os pratos com o almoço: batatas assadas e uma espécie de carne de boi recheada com repolho. Vi, analisei, cheirei... A princípio, nada exótico. Experimentei. Nada mal, apesar de ainda preferir o tradicional bife acebolado com arroz, feijão e fritas. Ao final, nos foi trazida a conta e, considerando a desvalorização da Coroa Tcheca face ao Euro, paguei barato.
Saímos do restaurante e pegamos o bonde em direção a Mala Strana (ou Pequeno Quarteirão), tradicional bairro de Praga fundado em 1257, notório por suas igrejas, palácios e antigas casas com símbolos à porta. Iniciamos nossa caminhada pelas bucólicas colinas da região, cujos gramados e desfolhadas árvores de inverno dão um charme maior ao local. Do alto de Mala Strana, tem-se uma bela vista de Stare Mesto (Cidade Velha), localizada na outra margem do rio Vltava, assim como do vizinho Castelo de Praga. Tiramos inúmeras fotos, que, certamente, registrarão tal inesquecível momento. Ademais, subimos os incontáveis degraus da Torre Petrín (1891), de 60 metros de altura, uma verdadeira cópia da francesa Torre Eiffel. Ouvi, nas escadas, um grupo de brasileiros conversando com um sotaque paulista e, sem eles me verem, gritei, exclamando: “Ê paulistada!!!”. Do alto, uma visão panorâmica, em 360 graus, permite compreender a beleza da capital da República Tcheca.
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Escrito por André Oliveira às 15h49
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