(...)

Visitamos, ainda, a pequena Basílica de São Jorge (ano 920), igreja em estilo românico, muito embora a sua vívida fachada, acrescentada no século XVII, seja barroca. Há um convento, a ela anexado, que abriga uma coleção de arte maneirista e barroca da Boêmia. O nosso ingresso estudantil, entretanto, não dava direito a visitá-lo e fomos educadamente barrados na entrada.

A Viela Dourada é uma estreita travessa na qual se situam pequenas e coloridas casas construídas no final do século XVI para abrigar os guardas do castelo real. A rua tem esse nome em razão dos ourives que nela passaram a morar a partir do século XVII. Durante o século XIX, a área se deteriorou e a população pobre e marginal de Praga passou a habitá-la. Franz Kafka viveu no número 22 entre 1916 e 1917. Hoje, pequenas lojas ocupam as restauradas casas e vale um conselho para os desatentos: mantenham a cabeça abaixada ao visitá-las!

Antes de deixarmos o Castelo de Praga, entramos na tenebrosa Torre Dalibor (século XV). Esta leva o nome de seu primeiro prisioneiro, um cavaleiro condenado à morte por ter dado abrigo a servos fugitivos. Inúmeras armas e artifícios de tortura, usados na Idade Média, são exibidos. Ossadas de alguns infelizes compõem a “decoração” do local.

Pegamos o bonde que nos deixou próximo à residência. Utilizar o sistema de bondes em qualquer cidade turística, como Praga, é sempre prazeroso, porque, além da função de transporte, propicia um belo passeio pelas ruas e avenidas. Viajante que sou, registrei o momento, utilizando minha câmera filmadora.
 
Arrumamos nossas malas e seguimos em direção à estação ferroviária. Um grupo de adolescentes atraiu minha atenção, já que conversavam e discutiam alto. Alesek disse-me para não olhá-los, pois, em suas palavras, eram imigrantes romenos “brigões” ou “perigosos”. Percebi uma certa dose preconceituosa e dei-me conta das eventuais rivalidades existentes entre os europeus. Claro, não é interessante para tchecos haver romenos em suas terras, em busca de trabalho ou melhores condições de vida, assim como alemães ou ingleses vêem com ressalva a presença de tchecos em seus países. Há uma curiosa cadeia hierárquica, para não dizer “alimentar”, pois tal expressão soaria indubitável canibalismo.

Após 3 dias em Praga, hoje parti para Ostrava, terceira maior cidade da República Tcheca. Aqui vive Alesek e sua família que, atenciosamente, convidou-me para conhecê-la, bem como a cidade, localizada próxima à fronteira com a Polônia.

O trem para Ostrava tinha saída marcada para as 19h. Decidimos aguardar em um “pub”, localizado próximo à estação. Nele havia uma sala de computadores anexa e, aproveitando a oportunidade, acessei a internet e conversei com alguns amigos brasileiros, utilizando um dificultoso teclado estrangeiro. Narrei um pouco de minhas experiências vividas até então, ao som de uma “remixada” música de Jorge Ben Jor. Decorridos alguns minutos, voltamos para a estação e embarcamos, muito embora o meu assento fosse em cabine diferente da de Alesek e Dennis. No entanto, iniciada a viagem, “migrei” para junto de meus amigos. Em nossa cabine viajavam, ainda, um risonho casal de, mais ou menos, 15 anos. Confesso ter ficado incomodado, para não dizer curioso, pois não entendia o porquê de tamanha felicidade. Poderia ser o amor, mas percebi que eram, apenas, amigos. No trajeto, Alesek e Dennis ensinaram-me algumas expressões em tcheco, claro palavrões ou frases engraçadas. Ainda me lembro de um tal de “Nemisei jedna hola dupa!”. Perguntei o significado, mas entender a expressão foi mais complicado que azeitona em boca de banguela. Retribuí as gentilezas e dei algumas aulas do mais “polido” português brasileiro. Ademais, conversamos e mostrei alguns postais e fotos de cidades brasileiras, bem como um mapa do Brasil. Esta foi minha primeira viagem de trem na Europa, célebre por sua vasta e eficiente rede ferroviária.

Após 3 horas de viagem, desembarcamos em Ostrava. De fato, embora bem agasalhado, senti o verdadeiro frio do Leste Europeu. Uma forte névoa encobre a cidade e penso que a temperatura local, ou ao menos a sensação térmica, esteja abaixo de zero grau. Sim, pela primeira vez em minha vida estou do outro lado da escala Celsius. Alesek disse-me para respirar fundo e sentir o efeito do tempo em meus pulmões. Claro, não dei ouvidos a ele, pois, do contrário, estaria fadado a terminar minha viagem em um leito de hospital.

Dennis despediu-se e tomou o rumo de sua residência. Alesek vive com seus pais e um irmão, em um apartamento no bairro Zabreh. Pegamos o bonde e desembarcamos em Horymirová. Atravessamos a deserta rua e entramos em seu prédio. Conheci Jurcik e Nádia, pais de Alesek. Pouco falam inglês, na verdade, o que demonstra os resquícios da influência comunista no país. Após nos cumprimentarmos, acomodei minha bagagem e tomei um banho. De alma lavada, jantei um delicioso “steak” de frango com maionese, prato não diferente dos padrões brasileiros. Após 1 semana “na estrada”, uma refeição feita em casa veio a calhar! Sentamos-nos na sala e mostrei, aos meus anfitriões, algumas fotos de minha família, bem como os presenteei com alguns produtos “made in Brazil”. Jogamos conversa fora ao longo da noite e vi um engraçado vídeo de família. Fui convidado para, amanhã, esquiar pela primeira vez. Resta-me uma boa noite de sono e, claro, expectativas para o vindouro dia.

 




Escrito por André Oliveira às 16h59
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Praga, domingo, 11 de Fevereiro de 2007


Caros Amigos,


Hoje, domingo, completa-se uma semana desde minha chegada no continente europeu, muito embora eu já tenha estado em três países – Portugal, Suíça e, no momento, República Tcheca.

Após uma gélida noite na qual, de fato, dormi com luvas, eu, Alesek e Dennis acordamos e tivemos o nosso café-da-manhã num “fast-food” local. Pedi um simples café-com-leite, satisfazendo-me apenas com a bebida. O atendente entregou-me um copo com café, juntamente com pequenos ‘potinhos’ de “sei-lá-o-que”, identificados no incompreensível idioma tcheco, mas sem o leite, conforme constatei, apesar de não ter reclamado, já que aquele pouco dominava a língua inglesa. Preferi, optando pela idéia do mínimo esforço, não fazer mímica ou outro sinal universal qualquer, e deixei tudo como estava, afinal nada me aborreceria em Praga. Alesek alertou-me, dizendo que um singelo café não é o bastante para a “mais importante refeição do dia”. Uma fantástica e sobrenatural imagem de minha mãe apareceu, de súbito, em plena República Tcheca, mas como ela está a milhares de quilômetros daqui e somente por esses escritos poderá ter conhecimento do fato, releguei.

Após a refeição, pegamos o bonde que nos deixou, novamente, em Mala Strana, muito embora o roteiro de hoje tenha sido, de fato, diferente. Passamos pela Praça de Mala Strana e fotografei a Igreja de São Nicolau (1761). A bela e estreita Rua Nerudova fora cenário de muitos contos de Jan Neruda, escritor do século XIX. Conheço o Pablo, mas não o Jan e, claro, não faltarão motivos para ler os seus escritos ambientados em Praga. As pequenas casas localizadas ao longo da via possuem, em suas fachadas, interessantes símbolos que, antes da instituição do sistema de numeração, as identificavam. Jan Neruda viveu, durante 12 anos, na Casa dos Dois Sóis. Pude observar, ainda, dentre outras, a Casa dos Três Pequenos Violinos e a Casa da Lagosta Verde.

No topo da Rua Nerudova, uma pequena passagem nos levou para o fabuloso Castelo de Praga, inaugurado no século IX. Apreciei, da Praça do Castelo, ao som de um violinista, uma incrível vista da cidade. Portado de um útil guia turístico, sugeri o percurso indicado. Iniciamos a visita pelo Portão de Matias (1614), em frente do qual se estendem duas bandeiras do país. Apesar do vento e do frio, dois soldados intactos realizam a guarda do castelo. Claro, pedi a Alesek que me fotografasse junto às imponentes figuras. Olhei, olhei e percebi que, ao menos, os guardas presidenciais mexiam e podem mexer os olhos. Ah, sim... Que passe a “garota de Ipanema”!

Atravessamos o segundo pátio interior, no qual se avista as janelas do gabinete do presidente da República Tcheca. As magníficas torres da Catedral de São Vito já se apontavam. Após cruzar um pequeno corredor, tive a surpreendente imagem da grandiosa catedral, cuja construção iniciara-se em 1344, a mando de Carlos IV. Nunca havia estado diante de tamanha obra religiosa. Nela entramos e constatei que as igrejas góticas são mais belas externamente e menos interessantes na parte interna – basicamente tetos abobadados pouco trabalhados e extensas vigas de concreto. Claro, sempre há os bem feitos vitrais, mas acredito que as igrejas barrocas são mais impactantes internamente. As naves da catedral são enormes e, em tal espécie de ambiente, escuro, não há poderosos “flashes” que propiciam boas fotografias. O túmulo do rei Venceslau localiza-se numa capela interior. Ainda que pese o célebre pensamento de Mário Quintana, segundo o qual há um abismo entre ossos e túmulos de anônimos e ossos e túmulos de celebridades, decidi não pagar para ver defunto.

Embora analfabeto em história política tcheca da Idade Média, que, de fato, não deve ser lá tão interessante, conheci o Palácio Real (século XI). Este é, para os descuidados e desavisados, imperceptível, dada sua simplicidade externa. No entanto, abriga vários salões com interessantes quadros e brasões. Estes recobrem as paredes e os tetos dos aposentos do Arquivo da Nova Terra. A Capela de Todos os Santos, construída para Carlos IV, tem um precioso altar dourado. O Palácio Real foi residência de uma longa linhagem de reis da Boêmia e, durante o domínio Habsburgo, tornou-se sede dos gabinetes do governo local.

(...)

 



Escrito por André Oliveira às 16h58
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