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Após a agradável visita, eu, Alesek e seus pais rumamos em direção ao apartamento no qual me hospedo. No elevador do prédio residencial, um pequeno garotinho, ao ouvir-me conversando com minha mãe, em uma ligação do Brasil, quedou-se confuso com o meu idioma, reputado, nada mais nada menos, “alienígena”. Disse aos seus pais, em tcheco, “não estou entendendo nada!”, ou algo do gênero. Claro, ele tinha plena razão.
À noite, fui convidado a aprender a jogar um dos mais populares esportes da República Tcheca: “ice hockey”. Nas segundas-feiras, reúne-se, no gélido ginásio do time Vitkovice, uma espécie de “clube de jogadores de hockey da terceira idade”. Para lá dirigi-me, juntamente com Alesek e Jurcik. Ao chegarmos, as divisões de base ainda treinavam, sob os atentos olhares dos papais-coruja, e, claro, fiquei vendo a criançada se divertir. Um dos meninos ainda aprendia a patinar, apoiando-se num gol móvel. Ao pensar que pouco me diferenciava do pobre coitado, resolvi segurar o riso. Mais tarde, Dennis apareceu no local e Alesek, jocosamente, perguntou-me se sapatos pretos combinam com “jeans”, referindo-se à roupa do colega. Disse que sim, que é uma combinação comum no Brasil, embora eu não use. Ambos são jogadores juvenis do Havirov, um dos mais importantes times de “ice hockey”do país.
Iniciado o aquecimento da “velha guarda do hockey”, entrei na arena, com uma bandeira do Brasil amarrada junto ao corpo, e, para a surpresa de muitos, patinei sem nenhum escorregão, sem nenhuma queda. Claro, ainda que patins de rodinhas sejam, de fato, bastante diferentes, devo a eles o meu relativo sucesso no gelo. Alesek emprestou-me uma raquete – ó céus, será “raquete” o nome? – e, a partir de então, pude ensaiar algumas tacadas. Considerando que o gélido “ice hockey” está literalmente longe de ser minha “praia” (e gelo está realmente longe de Copacabana), patinei, patinei, e sempre passava do disco, afinal, “desenfreado” que sou, não consegui me controlar. Infeliz no gelo e também no futebol, preferi chutar a “bola”, digo, disco, e mostrar a todos com quantas furadas se faz um Junta e Vamo.
Iniciada a partida, dei lugar ao clube da terceira idade. Eu, Alesek e Dennis deixamos o ginásio Vitkovice e rumamos em direção a um “pub” não muito distante dali. Conversamos, bebemos e, mais tarde, retornamos para casa, quando pude observar a presença de um Fiat Dobló estacionado na distante Ostrava. Procurei constatar a proveniência do veículo, mas sem sucesso. Passando por um posto de gasolina, adquiri um adesivo de automóvel indicativo da proveniência tcheca do mesmo, através das iniciais “CZ” (Cescká Republika). Sim, o meu objetivo é comprar (e colecionar) tal espécie de adesivo em cada país europeu que visitar.
Chegando em casa, verifiquei a minha caixa de e-mails, bem como mensagens de familiares e amigos brasileiros. No aparelho de som, coloquei alguns CDs de música brasileira. As vozes de Chico Buarque e Samuel Rosa ecoaram no Leste Europeu e não nego ter sentido algo “estranho” por dentro. Neste momento, estou a finalizar tal memorando. Certamente, o dia de hoje será para sempre lembrado. Estes escritos preservarão minha memória.

Escrito por André Oliveira às 20h27
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Ostrava, 12 de Fevereiro de 2007
Caros amigos,
Após uma boa noite de sono, em confortável e confiável ambiente familiar, levantei-me e tomei o meu café-da-manhã. Hoje, eu, Alesek e seu pai, Jurcik, viajamos rumo a Bilá, pequena cidade localizada ao sul da República Tcheca, nas proximidades da fronteira com a vizinha Eslováquia. “Mas ó céus, o que fazer em Bilá?”, perguntarão meus caros amigos. “Esquiar!”, respondo. “E pela primeira vez!”, completo.
Na viagem, pude apreciar a paisagem da região. Ao iniciarmos a subida pelas montanhas, constatei a presença de pequenos resquícios de neve ao longo das duas margens da rodovia. Após 30 minutos e cerca de 40 quilômetros percorridos, chegamos à estação de ski de Bilá. Retiramos todos os instrumentos do carro e, finalmente, apoiei os meus pés sobre o gelo que era, nada mais nada menos, tcheco...! Alesek e Jurcik emprestaram-me os seus equipamentos de ski. Após equipar-me com toda a parafernália, experimentei dar algumas voltas na neve. Iniciante que era – e, ainda, sou –, subi, “mineiramente”, com demasiada dificuldade, um pequeno pedaço da colina. Como estou longe de ser um revolucionário das leis da física, cumpri o postulado de Newton segundo o qual “tudo o que sobe, desce”. A primeira descida foi, dentro do possível, perfeita, isto é, sem quedas. Na descida seguinte, senti falta do pedal de freio e, como vocês já devem supor, levei uma queda digna de ser incluída nas vídeo-cassetadas do Faustão. Graças a Alesek, que me parou com as mãos, não tive que acionar o meu seguro-saúde pela primeira vez. Gostei tanto do negócio que, na terceira vez, fui mais longe, descendo tranqüilamente. Mais tarde, Alesek e Jurcik esquiaram e, habituados que são, utilizaram um pequeno teleférico que os levaram para o longínquo topo da montanha.
Após nos divertirmos na gélida Bilá, voltamos a Ostrava. No caminho, observei os interessantes prédios residenciais do tempo da ex-União Soviética, marcantes pelas escuras cores e pela horizontalidade. Digo que esta foi uma das mais interessantes experiências desta inesquecível viagem.
Na tarde de hoje, conheci os avós de Alesek, pai e mãe de Nádia. Receberam-me muito bem, na verdade, embora não falem inglês, pois, conforme já havia mencionado, são marcantes os resquícios da influência soviética na região. Enquanto conversávamos, sendo Alesek o “tradutor oficial”, pude degustar pequenos pães recheados com geléia, juntamente com café turco, apesar de todos os anfitriões serem originariamente eslavos. Finalmente, após 4 dias no país, dei-me conta do modo como é preparado o café-com-leite tcheco. Tomem nota: o café é servido juntamente com pequenos potinhos, nos quais há um leite concentrado, espécie de creme de leite, que deverá ser despejado na xícara ou copo com café. De fato, naquele momento, regressei no tempo e percebi o porquê de nunca terem me dado, em Praga, um “legítimo” café-com-leite mineiro.
Curioso que sou, perguntei sobre o passado. Afinal, qual é a visão daquela típica família tcheca acerca do findo comunismo? Confesso ter sido muito cauteloso com os meus questionamentos, pois não fazia a mínima idéia do modo pelo qual eles eram traduzidos. Disseram-me que pouca mudança ocorreu em suas vidas. Hesitei-me e perguntei com os meus botões: “puxa vida, uma das maiores potências da época sucumbiu, um muro que dividia arruinou-se e recebo ‘pouca mudança’ como resposta?”. “Xeretando” o passado, dei-me conta que o avô de Alesek, após a abertura do país, não perdera o seu emprego, diferentemente da mão-de-obra em geral. Trabalhador em uma carbonífera, manteve-se empregado, apesar da transferência do controle da empresa à iniciativa privada. Considerando uma partida de futebol, é como se o Estado fosse substituído pelo burguês. Apesar da substituição, o avô de Alesek permaneceu na ativa e, é claro, não teria razões para reclamar ou sentir mudanças. Hoje, aposentado, vive com a esposa em um dos típicos bairros residenciais de Ostrava.
Conversa vai, conversa vem, fui presenteado com um guia turístico de Praga. Folheei um antigo Atlas, bem como um interessante livro sobre a ex-URSS. Ensaiei algumas palavras no idioma tcheco e um “Stare Atlas” (velho atlas) arrancou risadas de meus anfitriões. Claro, a “Stare Mesto”(cidade velha) de Praga incrementou o meu parco vocabulário. Antes de partir, tirei uma histórica fotografia com a família, estando a bandeira brasileira à frente. Despedimo-nos e confesso a todos vocês que esta tarde foi, sem dúvida alguma, especial.
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Escrito por André Oliveira às 20h26
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